Capa do livro “Sophia de Mello Breyner Andresen: Uma Vida de Poeta” (Editorial Caminho, 2011), catálogo da exposição que esteve patente na Biblioteca Nacional, de 26 de Janeiro a 30 de Abril de 2011. «Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.»
Sophia de Mello Breyner Andresen (excerto inicial de “Arte Poética V”, in “Ilhas”, Lisboa: Texto Editora, 1989)
PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in “Livro Sexto”: II – “A Estrela”, Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; “Obra Poética II”, Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 128)
Recitado por Afonso Dias* (in CD “Cantando Espalharey”, vol. I, Edere, 2001)
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.
* Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato – Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro