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APRESENTAÇÃO DE RACHEL GUTIÉRREZ EM SANTANA DO LIVRAMENTO – por  Carmen Maria Serralta

Nota da coordenação – Rachel Gutiérrez, a contas com uma avaria no seu computador, não pôde enviar a sua «Carta do Rio», crónica que está destinada a este espaço. Substituímos a «Carta do Rio» por uma carta vinda de Santana do Livramento.  Nas palavras de Carmen Maria Serralta, transparece a amizade e a profunda admiração que Rachel Gutiérrez lhe merece. 

Começo por uma citação. No livro “A Amizade” de Maurice Blanchot lê-se o seguinte trecho de uma carta de Turgueniev endereçada a Tolstoi: “(…) estou te escrevendo para te dizer o quanto fui feliz por ser teu contemporâneo.” Com a devida alteração, digo o mesmo aqui, agora, para Rachel Gutiérrez, e de público, pois considero um privilégio ser sua amiga, ouvinte e leitora.

            Da amiga agradeço o convívio generoso em razão de seus raros dons pessoais, e da pianista-musicista tenho obtido no correr dos anos, o benefício de ouvi-la em suas cativantes – por sensíveis e competentes – interpretações musicais. Lembro, de passagem, a memorável, entre outras, versão das magníficas Valsas Nobres e Sentimentais de Maurice Ravel. Vale notar, ficando ainda no plano do registro da ouvinte, que existe, também, uma brilhante Rachel oral – a Rachel conferencista – de discorrer fluente, de palavra certeira e de ideias consistentes.

            Aliás, essas são características que se encontram manifestas em toda a sua obra escrita, constituindo, a meu ver, a felicidade de sua linguagem. Borges, sabidamente grande estilista, afirmou certa vez que a excelência do estilo de Voltaire residia no uso de palavras simples, cada uma em seu lugar. Rachel escreve muito bem e atribuo essa mestria à escolha que faz da palavra precisa no lugar devido.

            Não por acaso, a escritora versátil – desdobrada em tradutora, ensaísta, poeta, pensadora-feminista -, possui uma escritura onde se mesclam, além da emoção e do rigor, a leveza –  daí o texto límpido no qual revela a segurança de seu ofício e o domínio de sua arte.

            Rachel dos Guimarães Gutiérrez é santanense, filha de Ondina Guimarães de Gutiérrez e de Arthur de Mello Gutiérrez, que lhe legaram o melhor de seus mundos.

            De Ondina recebeu uma “incorrigível” alegria de viver junto a uma incrível energia e jovial espontaneidade. E de Arthur, uma inesgotável curiosidade intelectual justaposta a um profundo respeito pelas coisas do espírito desde cedo reforçados pela intimidade com os livros que compunham a grande biblioteca paterna. Livros esses escritos em muitas línguas – de onde certamente vem sua proficiência no trato de, no mínimo, cinco idiomas. E de ambos herdou o inestimável valor da cordialidade na convivência interpessoal.

            E para ficarmos em uma única imagem-símbolo, no caso retirado do âmbito doméstico, remeto-me a uma belíssima lembrança quando Dona Ondina recebia um bouquet de flores, todo sábado, pontualmente, de seu “cavalheiro” Arthur.

            A seguir, leio – do extenso curriculum de Rachel Gutiérrez uns poucos exemplos – são pequenas amostras, pois o tempo nos limita – das muitas atividades, títulos, traduções, trabalhos por ela realizados.

* Pianista – com curso em Viena (Áustria) e Professora dos Seminários de Música Pró-Arte no Rio de Janeiro. Iniciou os estudos de piano em sua terra natal no Conservatório Natto Henn, com a professora Maria Montano Farias que, junto à Alice Rolim Teixeira, dirigiam o Conservatório. E com a professora Lily Gil do Conservatório Falleri-Balzo de Rivera formavam o trio responsável por um intenso movimento de educação musical em Livramento e Rivera.

* Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Terminou o curso de Doutorado, também em Filosofia, com Teses em preparação sobre a estética da poesia na obra de Lou Andréas-Salomé e sobre o pensamento na obra de Clarice Lispector.

* Nos anos 80, fundou com algumas amigas o Grupo de Reflexão Feminista Mulherando. E representando o Movimento Feminista, foi a primeira mulher a participar de uma candidatura majoritária a Vice-Governadora nas eleições cariocas de 1986.

* Em 1994, criou, com Ester Schwartz, a Associação dos Leitores e Amigos de Clarice Lispector, da qual foi Presidente.

* Foi, durante longo tempo, Conselheira Editorial da Editora Rocco.

 * Autora de livros de ensaio, dentre eles: Narcisimo e Poesia, O Feminismo é um Humanismo; e de poesia: Cantares e Comigos de mim.

* Criadora de peças de Teatro: Lou Andréas-Salomé, Palavra de Mulher e Solo para Computador.

* Coautora de diversos livros como Mulheres (in) Versos e Women and Biography – da Pergamon Press London/New York.

* Tradutora de várias obras. Seleciono apenas algumas:

Do Inglês: Resumo de um Tratado da Natureza Humana, de David Hume.

Do Espanhol: Psicologia e Alienação, de Alberto Merani.

Do Francês: A hora de Clarice Lispector, de Hélène Cixous – edição bilíngue -, e O Feminino e o Sagrado, de Julia Kristeva e Catherine Clément.

Do Italiano: Sonho de Sonhos e Mulher de Porto Pim, ambos de Antonio Tabucchi.

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