Site icon A Viagem dos Argonautas

A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – À imagem da esperança

opiniao1

 

 

Há vinte e cinco anos, o massacre da Praça da Paz Celestial, em Pekin, assombrou o mundo.

Para compreender os acontecimentos, é preciso remontar no tempo.

Em 1978, os comunistas decidiram uma reviravolta: as Quatro Modernizações – da agricultura, da indústria, da ciência e da tecnologia e das forças armadas. Deixando de lado o maoísmo, o novo chefe, Deng Xiao Ping, citando Marx, associava o socialismo à abundância. Era preciso descoletivizar a agricultura, imposta pela força, e enriquecer o país, inclusive com os capitais estrangeiros.O segredo era manter a ditadura política. Este seria o elo essencial entre o passado e o futuro. Assim, embora descartadas suas ideias, foi preservada a imagem de Mao Dzedong.

Os resultados econômicos impressionaram. Prosperidade e desigualdades, mas todos pareciam ganhar.

Contudo, como recordava Tocqueville, nem sempre as revoluções acontecem quando as coisas pioram.

Encorajados pelas mudanças, os estudantes reclamaram uma “quinta modernização”, a democracia. O secretário-geral do PCC, Hu Yaobang, favorável ao diálogo, foi demitido, em janeiro de 1987. Seguiram-se a repressão e o silêncio. Mas a memória de Hu permaneceuentre os jovens.

Cerca de um ano e meio depois, em 15 de abril de 1989, anunciou-se a morte de Hu. Sem ordem de ninguém, emocionados, centenas de jovens, vindos a pé, de bicicleta, de ônibus, convergiram para a Praça da Paz Celestial, depositando flores, em homenagem ao falecido. As pessoas voltaram às ruas nos dias seguintes. Tomando gosto, resolveram ficar, ocupando a Praça, alojadas em barracas, em ônibus ou no chão. Aquilotransformou-se num imenso fórum de debates.

Em 24 de abril, a grande Universidade de Beida, declarou-se em greve: todos à Praça. Três dias depois, uma primeira passeata gigantesca, de 500 mil pessoas, com a presença de todas as classes sociais, estremeceu a cidade.

Mas o que desejavam aquelas gentes?

Queriam liberdade e democracia. A abolição dos privilégios das elites. Alguns pediam a queda dos “mandarins vermelhos”. Mas havia ali algo de mais profundo do que um programa político. Na Praça ocupada, inventava-se um modo de viver.

A livre palavra, ecoada por auto-falantes portáteis, a informalidade das vestimentas: jeans, camisetas, óculos escuros, bonés, tênis, canecas penduradas no pescoço, para beber água ou sopa. Várias Chinas cruzavam-se: dos monges budistas aos amantes da música ocidental. A partir do crepúsculo, festas, ao som do rock. Um observador anotou um lema ironicamente sinistro, premonitório: “neste país, só há uma alternativa para a festa: a morte”. Quando vinha o cansaço dormia-se no chão, em colchonetes, em qualquer lugar, sob a temperatura amena da primavera.

Sucediam-se manifestações cada vez mais densas, alcançando o milhão de pessoas. Deu-se início a uma greve de fome. Logo, 3 mil estavam envolvidos nela, acorrendo médicos e enfermeiras para evitar o pior, em mini-enfermarias construídas ao acaso.

As autoridades pareciam divididas entre o diálogo e a repressão. Esperavam pelo 15 de maio, quando se efetuaria uma grande visita diplomática, de M. Gorbatchev, secretario geral do PC soviético. Vinha com promessas de conciliação, procurando reatar uma amizade perdida. No auge do prestígio, o líder russo chegou com um enxame de fotógrafos e jornalistas internacionais. Para os agentes do poder, aquela visita foi um inferno. Por onde o homem ia, estavam lá os estudantes, gritando democracia e direitos humanos. Depois que partiu, ficaram os jornalistas, clicando, reportando para o mundo.

A Praça tornou-se um assunto mundial.

Na cúpula do poder prevaleceu, afinal, a linha dura. Em 20 de maio, proclamou-se a Lei Marcial. No dia seguinte, milhares de soldados aproximaram-se. Advertidos, os manifestantes foram ao seu encontro. Parando e subindo nos caminhões e nos tanques, trocavam sorrisos, flores e cigarros. Alguns soldados vestiram-se com as roupas da praça.

Aos olhos do poder, o desafio tornara-se insuportável. Era preciso esvaziar a praça e liquidar aquela gente, mesmo porque o movimento espalhava-se por várias cidades do litoral e do interior.

Fizeram vir unidades de elite do norte do país, desvinculadas dos costumes e tradições da capital.

O massacre ocorreu na madrugada do 3 para o 4 de junho. As estimativas de época falam de um mínimo de 1.400 mortes e cerca de 10 mil feridos. Mas os manifestantes eram pacíficos, não passivos. Resistiram. Com pedras, molotovs, armas capturadas. Num embate desigual, perderam, mas lutaram.

Na praça reduzida a cinzas, alguém encontrou um poema anônimo, o último eco do protesto: “Não quero parecer com o meu pai/suplicando ao céu que nada mude/Nem parecer com minha mãe/chorar todas as lágrimas do meu corpo/ Quero pegar a madeira verde/e moldá-la à imagem da minha esperança”.

Aqueles jovens viveram e morreram na Praça. Não envelheceram.

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Exit mobile version