EDITORIAL – Prémio Nobel da Literatura, com que critério é atribuído?
carlosloures
Como se de um deus se tratasse, os desígnios da Academia Sueca são insondáveis. O Prémio Nobel da Literatura, o mais prestigioso de quantos são atribuídos, talvez tenha uma fama exagerada, nem sempre é atribuído a escritores que a comunidade literária internacional preveja como vencedores. E a surpresa nem sempre é agradável. Mas então, se o resultado raramente corresponde às expectativas de escritores, críticos, académicos, editores, por que motivo continua a dar-se tanto valor a um galardão que parece ser outorgado por uma lista de motivos em que a qualidade literária não constitui uma prioridade? Quando entre um Milan Kundera, reconhecido internacionalmente como grande escritor, e um obscuro ficcionista francês, com mérito, mas sem amplitude universal, se escolhe Modiano, alguma coisa falhou. A organização não será…
Entre os 18 elementos vitalícios da Academia Sueca, são eleitos cinco para um mandato de três anos à frente do Comité Nobel de Literatura. Este Comité remete mais de 600 cartas a pessoas e organizações qualificadas, pedindo a indicação de candidatos. Até Abril, o Comité limita a lista a 15/ 20 nomes, a serem apresentados e aprovados pela Academia e, em Maio, escolhe cinco candidatos preferenciais. Durante o Verão, é feita a leitura de obras dos finalistas. Em Setembro, ficam três. Em Outubro, é anunciada a decisão. O processo de votação é mantido em sigilo por 50 anos.
Como se vê, não há improviso – a decisão é ponderada. Ponderação que não obedece a critérios estritamente literários. Escritores desconhecidos são preferidos, por vezes, a escritores de grande e reconhecida qualidade. E a desproporção das áreas linguísticas privilegiadas, é gritante – 28 de língua inglesa, 14 de francês, 7 de sueco, 6 de italiano… 1 de português. É difícil acreditar que a literatura sueca seja mais importante do que a italiana e que obras editadas no periférico idioma sueco valham sete vezes mais do que as oriundas de uma área de 200 milhões de falantes – Jorge Amado e Aquilino Ribeiro, foram casos gritantes. Mas não só: Leon Tolstoi, Émile Zola, Marcel Proust, James Joyce, Franz Kafka, Henrik Ibsen, Paul Valéry, Jorge Luis Borges, Ernesto Sábato, Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti, Paul Valéry… génios da Literatura que não mereceram lugar numa galeria onde, desde 1901, vagueiam, entre alguns grandes escritores justamente premiados, figuras mais do que secundárias. Em 1964, Jean-Paul Sartre recusou o prémio, alegando que a sua aceitação implicaria perder a sua identidade de filósofo.