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MISÉRIA DO OCIDENTALISMO – OS EUROPEUS OCIDENTAIS NADA QUEREM SABER DA RÚSSIA – por SLOBODAN DESPOT

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A Rússia integra o Conselho da Europa. Obrigado a Hayden120 e à Wikipedia

Miséria do Ocidentalismo –Os europeus ocidentais nada querem saber da Rússia

 

Slobodan Despot, Misère de l’occidentalisme-Les Européens de l’Ouest ne veulent rien savoir de la Russie

le Causeur, 12 septembre de 2014

Parte I

Esta nação que deu Puchkine e Guerra e Paz, Nijinsky e o Lago dos Cisnes, que tem uma das mais ricas tradições picturais do mundo, que classificou os elementos da natureza, que foi a primeira a enviar um homem para o espaço (e o último até agora), que produziu muitíssimos génios no cinema, na poesia, na arquitectura, na teologia, nas ciências, que venceu Napoleão e Hitler, que edita os melhores manuais — e de longe — de física, matemáticas e química, que soube encontrar um modus vivendi secular e pacífico, sobre um fundo de respeito e de compreensão mútua, com os seus tártaros e os seus inumeráveis muçulmanos, khazars, budistas, Tchouktches, Bouriates e Toungouzes, que construiu a mais longa via de caminho de ferro no mundo e ainda a utiliza (ao contrário dos EUA onde os carris legendários acabaram por oxidar), que explorou completamente e cartografou as terras, os usos, as etnias e as línguas do espaço euro-asiático, que constrói aviões de combate temíveis e submarinos gigantes, que reconstituiu uma classe média em menos de quinze anos após os efeitos ao nível de Terceiro Mundo provocados pela mundialização de Gorbatchov e Ieltsine, esta imensa nação, por conseguinte, que governa o sexto das terras emersas, de repente é tratada, de um dia para o outro, como um montão de brutos de que é necessário desembaraçá-los do seu ditador caricatural e sangrento antes de os educar a servirem – “a verdadeira” civilização!

O Ocidente gera sempre o mesmo comportamento ridículo e odioso em cada crise, desde Ivan o Terrível “à Putler” – Poutine, passando pelo czar Paul, pela guerra da Crimeia, pelo pobre e trágico Nicolas II, e mesmo pela URSS onde todo e qualquer sucesso era dito “soviético” e qualquer malogra desacreditado como “russo”.

Nações servis que atribuem aos Americanos um crédito ilimitado de deslealdade e de banditismo “porque eles libertaram-nos em 45” não têm uma palavra, não têm um pensamento de gratidão para com a nação que mais contribuiu para vencer a hidra-nacional-socialista … e que pagou o preço mais elevado. Os seus eleitos são tratados como importunos, o seu presidente caricaturado com um ódio obsessivo, a liberdade de movimento e de comércio dos seus cidadãos, cientistas, universitários e homens de negócios é suspensa à boa vontade de obscuras comissões europeias cujos povos que elas pretendem representar não conhecem sequer o nome de um só dos seus membros , nem porque é que aí está cada um deles colocado em vez de um outro qualquer criado das multinacionais.

Mas tudo isto não é ainda nada. É da ordem das coisas. O Ocidente e a Rússia não fazem mais do que jogar às prolongações, ao infinito, do conflito Roma-Bizâncio estendendo-o aos continentes vizinhos ou mesmo ao espaço interplanetário. A verdadeira guerra das civilizações, a única, está aqui, nesse jogo. Bárbara como o saque de Constantinopla, apocalíptica como a sua queda, antiga e dissimulada como os cismas teológicos que mascaram as pérfidas tomadas de poder. Escondido nas dobras do tempo, mas pronto para saltar e morder como uma armadilha para lobos. É a única armadilha, do resto, que o império ocidental não colocou sozinho e que possa por conseguinte desactivar. (Contando que a ameaça islâmica é apenas o produto das operações coloniais anglo-saxónicas, da avareza petrolífera e da acção de serviços de Estado ocupados a cultivar espantalhos para assustar os seus próprios cidadãos, depois a abatê-los para os convencer do seu próprio poder e da sua necessidade.)

A ameaça russa, esta, é de uma outra natureza. Eis uma civilização quase gémea, ancorada sobre as suas terras, consciente dela mesma e totalmente aberta para os três oceanos, ao Árctico assim como ao Himalaya, às florestas da Finlândia como às estepes da Mongólia. Eis soberanos que — desde a batalha de Kazan ganha por este mesmo Ivan que nos serve de Père Fouettard — assumem o título de Khans tártaros ao mesmo tempo que os Imperadores cristãos sentados na última Roma, a terceira, Moscovo, que floresce no momento em que Bizâncio gemia sob o peso dos Otomanos e o papa sob a bastão papal. Eis uma terra de horizontes infinitos, mas cujos contornos são gravados na história do mundo, invioláveis embora difusos. Eis pessoas, por último, e sobretudo, tão diversas que se pode imaginar, misturadas num mesmo povo o cabelo louro dos Viking aos olhos oblíquos e as peles curtidas da Ásia. Não esperaram o ponto de partida da mestiçagem obrigada, os Russos, têm-na no seu sangue, e tão bem assimilada efectivamente que não pensam mais nisso. Os obcecados da raça de cabeça rapada que se exibem sobre os canais anglo-saxónicos têm a mesma função que os cucos suíços: artigos para os  turistas.

Isto assemelha-se tanto à Europa. E está tão longe! Tão longe que os incansáveis topógrafos dos mares — genoveses, ingleses, neerlandeses, espanhóis —, que conhecem o odor da fava tonka e a variedade das madeiras de Sumatra, não sabem nada da composição de um borchtch. Nem mesmo da maneira como se pronuncia o nome desta sopa. Não é que não o poderiam o saber. É que simplesmente não têm esse desejo. Da mesma forma que não querem conhecer, verdadeiramente, o espírito, os costumes e a mentalidade dos imigrantes exóticos que acolhem doravante aos por milhões e que deixam aglutinar-se em guetos porque não sabem sequer como lhes falar.

Eu próprio tive, pequeno sérvio, que aprender duas línguas e dois alfabetos para iniciar a minha vida de imigrante. Aprendi outros para melhor conhecer o mundo onde vivo. Surpreendo-me sinceramente ver que os meus compatriotas suíços não sabem, na sua maior parte, as duas outras grandes línguas do seu país. Como conhecer o outro se não souber nada da língua que ele fala? É o mínimo da cortesia. E esta cortesia, doravante, reduz-se cada vez mais à rudimentos da língua inglesa nos aeroportos.

Do mesmo modo fazem os Russos, cuja educação integra a cultura da Europa Ocidental para além, da sua própria cultura. Onde é que se vê a recíproca, a oeste do Dniepr? Desde Pierre o Grande, que eles se consideravam verdadeiramente europeus. Os artistas do Renascimento e os pensadores das Luzes são os seus. Leontiev, o pai Serge Boulgakov, Répine, Bounine, Prokofiev e Chestov são eles por isso mesmo os nossos? Não, naturalmente. Falar francês foi durante dois séculos a regra nas boas casas — e o resto ainda, por vezes. Eles consideram-se intensamente europeus, mas a Europa obstinou-se a dissipar-lhes esta ilusão. Quando os jovens Russos vos cantam Brassens de memória, será que os Europeus lhes respondem evocando “Tolstoïevsky”. A Europa de Lisboa à Vladivostok terá sido real apenas a  Leste. A Oeste, nunca passou de projecção livresca de alguns visionários.

(continua)

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Ver o original em:

http://www.causeur.fr/misere-russie-ukraine-29201.html#

 

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