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CONTOS & CRÓNICAS -Uma história inverosímil – por Manuela Degerine

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(Conclusão)

II

O senhor Miguel

 

Decorridos dois anos, após as compras no supermercado, de súbito ocorre-me: e se fizesse uma visita? Entro num estabelecimento desarrumado, atrás do balcão vejo um homem magro, com barba grisalha, camisa pouco limpa… Tenho dificuldade em reconhecê-lo. Parece o mesmo, vinte anos depois, mais triste, mais pobre, mais amargo.

– Não tenho vindo a Tomar e, quando vim, foi sempre a correr… Mas continuo a agradecer a ajuda que me deu. Como está a sua filha?

– Nem sei… Não lhe telefono há várias semanas. Fiquei magoado com o que disse na última vez que lá fui…

– Não fique: é uma adolescente. Há tantas coisas que ela ignora e precisa que o senhor lhe explique… É o seu papel. Os pais não servem só para pagar pensões.

Ele acaba por sorrir.

– Ando um bocado desanimado. Mas tem razão: vou-lhe telefonar.

Continuo a meditar sobre esta espiral lusitana. Uma descolonização que é um abandono. Um curso que é uma burla. Um centro comercial que acaba de o arruinar. E uma companheira que não se deixa arrastar no torvelinho. Qualquer família transmite um património ético, social, cultural, simbólico, financeiro mais ou menos determinante, porém o nosso percurso é igualmente modificado por ações, opções, acasos, forças económicas, mudanças sociais, eventos históricos que, na maioria dos casos, quando surgem ou ocorrem, não estão sinalizados: túnel, peões, lomba, descida, trabalhos, berma baixa, queda de pedras, passagem estreita… Precipício. Depressão. Estou a lembrar-me de “João e Maria” de Chico Buarque de Holanda: “O que é que a vida vai fazer de mim?” Felizmente, enquanto a vida nos faz, nós fazemos a nossa vida; somos o ponto de equilíbrio entre o que depende e o que não depende de nós.

Apetecia-me imaginar o futuro deste homem como personagem de Camilo Castelo Branco (portanto: copiada de Vítor Hugo mas menos credível do que Jean Valjean). A mãe do senhor Miguel morre. Ele vende tudo; e desaparece. Dez ou doze anos mais tarde, isto é, por volta de 2025: o Hotel dos Templários é comprado por um português que emigrou para Dubai na era de Pedro Passos Coelho. Os leitores percebem a reviravolta e podem imaginar o resto. Não me admira que haja no futuro (e na vida real) algum caso idêntico, resigno-me todavia a escrever outra conclusão por não conseguir acreditar nesta. (Como os leitores verificaram e não esqueceram, embora fosse bom prosador, Camilo Castelo Branco escreveu maus romances.) As grandes fortunas provêm de falcatruas para as quais o senhor Miguel não parece predisposto ou de grandes descobertas – o ovo de Colombo – para as quais pode na verdade estar. Ou não. Em que pensa o senhor Miguel na loja vazia? Só ele poderá encontrar a conclusão desta história. (Mas espero que lhe seja favorável.)

 

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