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MITO & REALIDADE – Morte e terror em Lisboa – 4 – por José Brandão

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                                                                                                               TROPAS DA GNR E DA MARINHA ESTACIONADAS NO TERREIRO DO PAÇO NA MANHÃ DE 19 DE OUTUBRO

Eram então duas horas da tarde. A cidade estava calma. Lisboa fazia já a sua vida normal, com os estabelecimentos abertos e os elétricos a circular, «resumindo-se a revolução a qualquer coisa que se desenrolava lá para cima, para as Avenidas Novas.»

A revolução triunfara ao fim de uma escassa meia dúzia de horas. Não houve resistência de nota nem ocorreram confrontos de grande significado.

Apenas no Quartel de Marinheiros, em Alcântara, a rebelião fora um pouco mais difícil. Os insurretos tiveram de fazer fogo contra o segundo-comandante da unidade, capitão-de-mar-e-guerra Pereira Leite, não o atingindo, e contra o segundo-tenente do secretariado naval, José Correia Júnior, que sofreu dois ferimentos.

«Nunca se viu uma revolução assim. Magnífica atmosfera vai ter o novo Governo», proclamavam os oficiais revoltosos.

Com efeito, tudo tinha sido resolvido quase sem correr uma gota de sangue.

Quando arrancaram as primeiras horas do dia, a revolução tinha já garantido o seu sucesso. Sem a Guarda Republicana e a Marinha de Guerra, nenhum Governo da República podia alimentar a mais pequena esperança de fazer frente a uma insubordinação armada.

Ao disparar os primeiros três tiros de aviso, a artilharia pesada da GNR foi logo correspondida pelos canhões de bordo do Vasco da Gama, que nesse mesmo dia estava pronto para partir com destino ao Oriente.

Passavam à ação as duas grandes forças da revolta.

Paradoxo dos paradoxos, os dois mais importantes baluartes em que historicamente assentava a defesa da República estavam eles próprios em revolta contra um Governo eleito sob legitimidade republicana.

A conjura era até chefiada por uma das mais distintas figuras do historial republicano. Manuel Maria Coelho, o lendário tenente Coelho, da revolução do 31 de janeiro de 1891, agora coronel, presidia à Junta Revolucionária que dirigia o movimento. «Este movimento é de honestidade. De honestidade, apenas. Os revolucionários julgam que o meu nome é seguro penhor dessa honestidade», afirmava aos jornalistas o chefe militar da Junta Revolucionária.

Acompanhado nessa Junta pelos oficiais da GNR Camilo de Oliveira e Cortês dos Santos e pelo capitão-tenente da Marinha Procópio de Freitas, o velho herói da revolta do Porto era a única grande referência republicana de um movimento pouco claro.

Uma espessa barba branca dava severidade e respeito à figura uniformizada do já quase mítico militar que comandara a primeira grande revolta contra a Monarquia em 1891.

Longe iam os dias dessa data histórica para a República.

Nessa altura de 1891 não podia haver qualquer confusão: a revolta era toda ela impregnada de fé e verdade republicana. Fora esmagada, é certo, mas ficara para sempre o seu exemplo de força e da determinação que move os homens e remove montanhas.

Ativista republicano desde muito novo, Manuel Maria Coelho chegou mesmo a fundar e a dirigir diversos jornais de propaganda republicana na fase que antecedeu o 5 de Outubro de 1910. A sua participação nas movimentações militares do 31 de janeiro de 1891, de que foi um dos principais obreiros, colocou o seu nome entre os mais respeitados do galarim republicano. O então tenente Coelho foi levado a Conselho de Guerra, condenado e deportado para Angola, onde passou cinco anos de degredo, e, no regresso, abatido ao efetivo.

Reintegrado no Exército após a implantação da República, atingiu o posto de coronel, desempenhando diversos cargos e missões.

Famoso por via da sua participação na primeira grande revolta contra a Monarquia, o agora coronel Coelho nunca imaginaria no que se estava a meter ao aceitar cobrir com o seu nome a revolta de 19 de outubro. Certamente que o velho lutador republicano estava longe de pensar aonde ia parar o movimento revolucionário deste dia do ano de 1921. Ninguém podia crer que alguma vez um homem desta envergadura pudesse estar a pactuar conscientemente com aquilo que dentro de poucas horas se iria transformar numa das páginas mais negras, senão mesmo a mais negra, de toda a história da I República em Portugal.

Manuel Maria Coelho, que em 1891 no Porto tudo fizera pelo ideal republicano, chefiava no ano de 1921 em Lisboa a pior de todas as tragédias que deixaria manchado de sangue o já tão comprometido futuro da República e de Portugal.

Em circunstâncias políticas mal esclarecidas, surgia na chefia de um dos golpes militares-civis de inspiração mais confusa até então desencadeado no País.

Ao certo, pouco mais se sabia do que o grande empenho de boa parte do oficialato da Guarda Nacional Republicana e em especial dos elementos ligados ao Estado-Maior-General desta corporação.

Longe, muito longe de ser qualquer coisa semelhante ao 31 de janeiro de 1891, estava este movimento que ocupara Lisboa às primeiras horas do romper do dia 19 de outubro do ano republicano de 1921.

Desta vez tudo tinha sido mais fácil para Manuel Maria Coelho. O movimento que comandava não encontra nada que se compare com aquilo que sucedeu no 31 de janeiro. Não há combates como os da Rua de Santo António ou da Praça da Batalha do Porto. Não há feridos nem mortos como se viu pelo Largo de Santo Ildefonso ou pelas ruas junto à praça de D. Pedro.

O movimento revolucionário de 1921 não necessitara, porém, de grandes preparativos. Era já esperado e tido como inevitável para a maioria das pessoas mais acompanhantes desta forma de fazer política pelo cano das espingardas, e que se tornava a opção preferida de todos os que «mexiam» os cordelinhos da vida política do País ao tempo da I República.

Os insurretos de 19 de outubro eram apenas mais uma série de protagonistas diretos de um corrupio de golpes e contragolpes, revoluções e contrarrevoluções que acompanhavam como uma autêntica praga o destino desta República parida em 5 de Outubro de 1910.

 O comando militar estava instalado num dos anexos do Hospital Militar de Campolide, ocupando uns barracões cinzentos. Por seu turno, os revolucionários civis tinham escolhido o café A Brasileira do Rossio para quartel-general das suas atividades.

O Governo tentara ainda de início tomar uma atitude de resistência mandando sair algumas tropas de Belém. Contudo, mal chegaram às proximidades do Cemitério dos Prazeres os poucos elementos de Cavalaria 2 e os de uma companhia de Infantaria 1, igualmente reduzida em número, acabaram por destroçar sem ter estabelecido qualquer contacto com as forças sublevadas. O tenente-coronel Raul Esteves, que comandava o pequeno núcleo de tropas às ordens do Governo, entendera ser totalmente inútil qualquer esboço de resistência.

De facto, assim era. Integrada a Guarda Nacional Republicana na rebelião, não havia força capaz de se lhe opor em Lisboa. Equipada com o mais moderno e eficaz armamento existente nos arsenais bélicos portugueses, a GNR era nesta altura um verdadeiro exército.

Criada nos primeiros anos da República tinha sido recentemente reforçada sob pretexto de combater as tentativas restauracionistas das falanges monárquicas, em especial depois dos acontecimentos de 1919. Considerada guarda-pretoriana da República, este corpo especial de tropas passara a ser a mais poderosa força de intervenção estacionada em Lisboa, desde que o Governo deslocara para Mafra grande parte das unidades do Exército, entre as quais os regimentos de maior confiança.

 

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