FRATERNIZAR – Na 27.ª Gala do Futebol Clube do Porto – por Mário de Oliveira
carlosloures
BISPO DO PORTO, “UM GRANDE DRAGÃO”! (Texto de abertura do JF, Edição 102, Novº 2014 www.jornalfraternizar.pt.vu)
À falta de actividades pastorais substantivas, a maior das quais, para não dizer, a única, para um bispo, é Evangelizar os pobres e os povos, o Bispo do Porto foi convidado e aceitou participar na 27ª edição da Gala dos Dragões de Ouro, realizada no passado dia 28 de Outubro, no pavilhão Dragão Caixa. Prestou-se, inclusivamente, a entregar em mão ao dirigente do Clube, Antero Henrique, um dos Dragões de Ouro, precisamente, o que foi atribuído ao projecto do ano, o museu do Futebol Clube do Porto. VP, Semanário da Diocese do Porto, dá a notícia na sua última edição de Outubro, e faz questão de a ilustrar com uma pequena foto do bispo D. António Francisco dos Santos, enfeitado com a respectiva cruz peitoral sobre o peito e o anel no respectivo dedo da mão direita. Não tece a propósito – quem na redacção se atreveria? – o mais pequeno comentário ao facto, tido, certamente, como mais um daqueles faits divers, que, uma vez publicado, deixa de o ser, para se tornar relevante. No caso, relevante, mas para vergonha de quem o protagoniza.
Na circunstância, o dirigente do FCP destacado para receber o prémio, não quis deixar os seus créditos por mãos alheias e afirmou: “É uma obra que diz muito para mim, para a cidade e para o país. Portanto quem entregou o prémio foi a primeira figura da cidade do Porto, um grande dragão, o bispo D. António Francisco dos Santos”. VP que regista estas breves palavras, dá o assunto por encerrado. Pelo que é de depreender que o Bispo do Porto encaixou bem o piropo de “maior figura da cidade” e remeteu-se ao silêncio. É legítimo supor que terá, no mínimo, esboçado um sorriso de satisfação e de confirmação do referido. Só que de um piropo se trata e, dito por quem foi, pode muito bem converter-se numa desdita, caso as pessoas tropecem nele e em vez de lerem “maior figura da cidade”, lerem “maior figurão da cidade”. Tal e qual o presidente vitalício do FCP, Jorge Nuno Pinto da Costa, mais do que imbatível nesse domínio.
Compreende-se que o Bispo do Porto tenha aceitado o convite. Que tenha aceitado entregar o prémio. Só não se entende que VP não registe uma única palavra dele, num evento daqueles, onde a sua presença silenciosa revela o incómodo com que se sentirá na pele de “um grande dragão” entre outros grandes dragões lá presentes e até premiados. Falta saber em que área é que o Bispo do Porto é “um grande dragão”, já que na do futebol dos milhões nem sempre ganha quem mais marca, mas sempre ganha quem mais consegue driblar a chuva da grande corrupção e sair dela sem se molhar. Pelo menos, perante os tribunais, também eles compinchas no que respeita a negócios sujos. Sim, sim, há excepções, sobretudo, para corruptos de pequena monta, que só servem para confirmar a regra.
Os pobres da diocese do Porto e do país, bem podem esperar que o Bispo realize com eles a sua missão – Evangelizar os pobres. Uma missão de alto risco pessoal, porque não se cumpre com a mera repetição até à náusea de ritos litúrgicos, nem de missas com ou sem pompa e circunstância, mas com a acção maiêutica de despertar os pobres de dentro para fora para o combate desarmado que todos eles têm de protagonizar contra as causas da pobreza, a deles e a de milhões de outros. Em lugar de se ficar pela reiterada caridadezinha e pela resignação. ao jeito da madre Teresa de Calcutá, do Banco Alimentar contra a Fome, da Cáritas, da santa casa da misericórdia, que nem é santa, nem é misericórdia. Fosse por aí, como foi a de Jesus, a acção pastoral do Bispo António Francisco dos Santos, desde que tomou posse na catedral do Porto, já então a falar nos pobres, sem, entretanto, nunca os Evangelizar até hoje e, certamente, nunca ele teria sido convidado pelo FCP para esta Gala, muito menos, teria sido designado de “um grande dragão”. E assim se (des)faz a igreja católica em Portugal, nomeadamente, no Porto!