Site icon A Viagem dos Argonautas

CONTOS & CRÓNICAS – “MAURÍCIO VILAR TEM UM SÁBADO DE ROTINA” – por João Machado

contos2 (2)

Meu caro amigo, desculpe, a explicação que me deu para os meus calafrios não me convence. Diz então que não estou habituado a enfrentar desafios, a pensar em alterações à minha vida. Só assim se explica, na sua opinião, que, com quase quarenta e oito anos (faço-os em Janeiro próximo), ainda viva com a minha mãe, com o curso por acabar (está quase no fim, veja lá!) e que nunca tenha tido um trabalho certo.  Bem, é verdade que lá na faculdade, terça-feira passada, senti realmente calafrios a observar a Heloísa e a Maria da Luz a conversarem tão contentes. Sei que acha que devia ter ficado muito contente por elas se darem bem, mas digo-lhe que é verdade, fiquei mesmo contentíssimo. E mais ainda por a Maria da Luz ter aceitado o convite para vir jantar cá a casa na próxima sexta-feira. Ela aliás, no dia seguinte e depois, disse-me estar mesmo muito satisfeita por ter finalmente conhecido a minha mãe. É verdade que fiquei surpreendido, porque antes tinha pensado que seria ao contrário, que ela não estaria nada interessada. Ainda bem que estava enganado.

Hoje é domingo, e estou aqui no meu quarto a estudar. Para descansar um pouco, vim escrever-lhe. Sei que me acha preguiçoso, mas acredite que tenho estudado bastante. A Maria da Luz anda muito contente comigo. Não, não é pelo que está a pensar. Esta semana correu realmente tudo  muito bem, e estivemos várias vezes em casa dela, mas a nossa preocupação tem sido sobretudo o estudo. Ela foi à Covilhã na sexta-feira e só vem amanhã de manhã. De modo que este fim de semana tenho de estudar sozinho. Entretanto a minha mãe foi logo de manhã á missa com a D. Henriqueta e a Maria Antónia, que, julgo que ainda não lhe contei, é muito católica. Eu é que deixei de ir á missa porque não quero confessar-me. Acho que o padre (chama-se Francisco, tal como o papa, imagine) não tem nada a ver com a minha vida. Deixei de ir à igreja quando tinha dezasseis anos. A minha mãe na altura também não ia lá, e passou muitos anos assim. Mas há algum tempo atrás, talvez uns três anos, voltou a ir á missa. Julgo que serão influências da D. Gertrudes Acabadinho, que, para além de falar das telenovelas e contar a vida das vizinhas, adora a vida de igreja. Diz que é preciso respeitar a tradição e fazer o que Deus manda. Eu, por mim, tudo bem. Só não quero é que o padre me diga que não posso ir à pensão da D. Generosa, visitar a Maria da Luz ou ter uma escapadinha com a Maria Antónia. A pensar nisso, acredite, é que sinto cada calafrio… Entretanto, não me pergunte como é que a Maria Antónia se desembaraça quando tem de contar ao padre as suas aventuras. Não faço ideia. Ela também não parece preocupada com o assunto…

Ontem à tarde, fui com a minha mãe ao café. Estivemos lá bastante tempo, com a D. Gertrudes e a D. Josefa, elas numa amena cavaqueira e eu a estudar. Enquanto falavam das telenovelas e das histórias da vizinhança, ia lendo um livro que a Maria da Luz me emprestou. Pediu-me para ler dois capítulos, para na segunda-feira falarmos. Só lhe digo que adormeci três vezes, ali sentado e tudo. Sempre tive este problema com a leitura, sobretudo quando se trata de livros de estudo. Ainda quando é um romance daqueles alegres, está-me a perceber? Sempre é mais interessante… A minha mãe, de uma das vezes, despertou-me. Quando adormeci pela terceira vez, senti qualquer coisa de estranho, e pareceu-me ouvir alguém a chamar-me. Devo ter protestado, porque senti que me abanavam. Abri os olhos e dei com a Maria Antónia a rir-se para mim, com a mão no meu joelho, de modo a que ninguém desse pelo atrevimento. Ela e a D. Henriqueta tinham entrado enquanto eu dormia e estavam sentadas na mesa mesmo ao meu lado. A minha mãe e as vizinhas continuavam a conversar, incluindo as recém-chegadas nas suas análises telenovelísticas e nas bisbilhotices do dia. Endireitei-me, tomei o ar mais sério que me foi possível e continuei a minha leitura. Felizmente que, pouco depois, voltámos para casa.

À noite, lá fui fazer uma visita à Maria Antónia. Garanto-lhe que não abordei com ela o problema da confissão. E não senti quaisquer calafrios.

Exit mobile version