CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR SENTE CALAFRIOS – por João Machado

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Meu caro amigo, desculpe o final da última carta. Ao relatar-lhe a conversa com a Maria Antónia, tentei descrever-lhe as dúvidas que me assaltaram na altura, e fui acometido por certa perturbação. Interrompi a carta e fui comer o jantar que a minha mãe já tinha na mesa. Comi uma sopa de feijão que ela faz muito bem, e peixe cozido, que é um prato que adoro, com um ovo cozido, batatas e brócolos. Bem vê, não sou como um sujeito um tanto enfastiado, que também mora aqui no prédio, no segundo andar, e trabalha em jornais ou editoras, não sei bem, e que diz à mulher que cozer o peixe é estragá-lo (se calhar gosta dele cru), e que é preciso ser masoquista para gostar de brócolos, ou cheirá-los sequer. A Heloísa contou-me esta há dias, ao almoço. Contar as peripécias da vizinhança é o segundo grande entretém dela, logo a seguir às telenovelas. Mas depois desta pequena interrupção, vou continuar a contar-lhe a minha conversa com a Maria Antónia. Aonde íamos? Pois na altura em que ela me descrevia as dúvidas da D. Generosa em ir à polícia fazer queixa do Álvaro, o seu hóspede caloteiro.

Na altura, depois de remoer um pouco, disse:

– É complicado. – Depois de pensar um pouco, falei devagar: – Ela pode, um dia que ele saia, pôr-lhe as bagagens na rua. O problema é que ele pode tornar-se violento. A D. Generosa não tem alguém que a ajude? Eu não me ofereço, que ele conhece-me, e pode querer alguma desforra. Ainda vinha aqui insultar a minha mãe… – procurei dar um ar firme ao fazer esta oferta tão arriscada.

– Isso não. Não podia ser. Se a D. Henriqueta soubesse que eu o tinha metido no assunto, punha-me na rua. E eu estou aqui muito melhor do que a andar por aí, na rua, ou lá na pensão, a engatar malcheirosos. Só estou para aqui a falar consigo, para ver se acerto ideias.

– A D. Henriqueta o que diz a isto?

– Ela também tem dúvidas sobre se a irmã fará bem em ir à polícia. Diz que seria melhor que ela contratasse um advogado. E hoje de manhã pôs-se a dizer que era uma pena que o Mauricinho demorasse tanto a acabar o curso.

– Sim?

– É verdade. Diz que como advogado poderia ajudar a sua mãe, a ela e mais uma data de gente. Até a mim. Poderia dar uns conselhos à Generosa para resolver os problemas com a pensão. Ela está a ficar muito velha, tem quase setenta anos. É muito rija, mas não tem ninguém que a apoie.

Senti calafrios a percorrer-me a espinha. A minha vontade de acabar o curso, que ultimamente tem crescido razoavelmente, atingindo níveis nunca atingido no quarto de século que já medeia desde que entrei para a faculdade, voltou a conhecer uma súbita quebra. Vi-me num relance a enfrentar os clientes da Generosa, as meninas que se servem da pensão para o “atendimento”, e outras situações ainda mais complicadas. Como conseguiria um advogado ajudar a Maria Antónia? Encostei-me na cabeceira da cama. A Maria Antónia fixou-me, fez um trejeito, e disse:

– Não se assuste. Não tem de ir aturar o bandido do Álvaro. Mas é preciso dar uma orientação à Generosa. A minha ideia é que ela devia mesmo ir à polícia. Se alguém tivesse lá um conhecimento…

Acredite que fiquei impressionado com a simpatia da Maria Antónia pela D. Generosa. Ela disse-me ainda:

– A Generosa deu-me de comer, quando eu precisei. E apresentou-me aqui à irmã. É chata, mas é ainda melhor pessoa do que ela. Não se acredita. Por isso não se admire que a queira ajudar.

Então senti-me comovido, o que, meu querido amigo também é raro em mim. Pensei durante uns minutos, enquanto a moça se preparava para dormir. Levantei-me para me ir embora. Ainda lhe disse:

– A Josefa e o Bráulio quase de certeza que conhecem alguém na esquadra.

– Já pensei nisso. Amanhã, vou falar com ela logo de manhã.

Voltei para casa. Era quase uma da manhã. A minha mãe já estava deitada. Deve ter pensado que eu já dormia. Fui direito para a cama. Mas diga-me: no meu lugar, tinha-se oferecido para ajudar a D. Generosa a expulsar o meliante do Álvaro?

 

 

 

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