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A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – O poder: medo e fascínio

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Num dicionário de lugares imaginários, Alberto Manguel e Gianni Guadalupi relacionaram uma Cidade do Medo, criada em 1874 por um certo James Thomson.

Em vez de uma utopia luminosa, Thomson propôs como quimera a Cidade da Assustadora Noite. Cingida pelo Rio dos Suicídios, sempre às escuras, arruinada, casas imensas e silenciosas, ruas estreitas, o lugar tem como patrona uma estupenda imagem de mulher alada: a Melancolia. Os habitantes, principalmente homens maduros, os rostos cansados, desgastados, parecem surdos e cegos como trágicas máscaras de pedra. Nunca dormem, vagueiam o dia todo e os pés nem fazem barulho nas pedras das ruas. Segundo viajantes de passagem, as pessoas sequer conversam, amedrontadas.

Thomson, num registro de senso comum, associou o medo à noite, à escuridão, ao silêncio, à ruína, à inatividade.

Mas o medo pode ser abordado e compreendido de outros ângulos.

Ao propor uma releitura de Hobbes, Carlo Ginzburg atribui ao pensador inglês, o ter colocado o medo num lugar central da filosofia política. Na perspectiva de Hobbes, o estado de natureza não seria caracterizado pela sociabilidade, mas pelo seu contrário: a guerra de todos contra todos. O Estado teria, assim, emergido de um pacto parido pelo medo. O medo de que todos se matassem uns aos outros.

Em suas elaborações sobre o Estado, Hobbes, sempre segundo o pensador italiano, teria imaginado que os seres humanos constróem com o Estado relações marcadas mais que pelo medo, pelo terror. Um terror que os prende e sujeita, reverentes, transidos pela admiração. A criatura – o Estado – converte-se então num monstro – o Leviatã, figura mítica, extraída da Bíblia, um imenso animal que os criadores já não podem mais controlar, porque imaginado como essencial para garantir a paz interna e a defesa contra inimigos externos, mesmo que à custa da renúncia de direitos considerados essenciais.

Para que o Estado dure, é preciso que o pacto original permaneça vigente, conferindo ao monstro, à criatura, o poder de, pelo terror, dobrar e dirigir a vontade dos criadores.

Hobbes propôs a discussão destas questões nos anos 40 do século XVII, tempos sem sol, de irrupções violentas, surpreendentes, quando surgiram na cena política, de todos os lados, vozes alternativas, delirantes, que não costumavam ser ouvidas. Os criadores, exaustos sob o jugo da criatura, ensaiavam destruí-la, recuperando o controle sobre seus destinos, como se o mundo houvesse virado de ponta-cabeça, na expressão de Christopher Hill.

Tomadas por desconhecidas energias, aquelas gentes fizeram e aconteceram, enforcaram o próprio rei, algo enorme até hoje, quanto mais naqueles tempos em que os monarcas eram figurados como emanação da própria divindade. Mas a energia desatada naqueles dias de turbulência esvaiu-se,   dispersou-se. Vieram então outros reis, refez-se a paz, restabeleceu-se o Leviatã na tradicional catadura, terrível e bela, suscitando pavor, reverência e admiração entre os criadores, novamente encolhidos.

Em suas reflexões, Ginzburg enfatiza uma chave essencial: o monstro é produto da atividade humana, consciente e criadora.

No mesmo sentido irão as análises de um historiador alemão, Peter Reichel, sobre o fascismo e o nazismo. As polícias políticas de Mussolini e Hitler esfolaram, torturaram e mataram, sem dúvida. Intimidaram e amedrontaram. Contudo, inquietante é o encadeamento da coerção externa – da repressão – e do ânimo interno – das gentes.

À violência do Estado combinou-se um crescente fascínio pelo poder. Uma dupla face – violência e fascinação. Entre uma e outra, nuanças e ambivalências. Diz Reichel: não há apenas o terror exercido por uma elite criminosa e profissional sobre uma sociedade supostamente inerme e passiva, anômica, vítima de monstros invencíveis. Há a vontade fascinada pelo poder, porque para muitos, e tantos, é bela a aparência do Terror, exercido por um Estado que oferece ordem, segurança, força, limpeza e prosperidade.

As ditaduras aparecem, por meio de tais interpretações, como atividade construtiva, fundamentadas em avaliações racionais e sentimentos apaixonados. Que se pense num Hitler, num Stalin, num Mussolini, num Fidel Castro, ou, no caso brasileiro, num Vargas ou na ditadura civil-militar instaurada em 1964. Ditaduras muito diferentes, sem dúvida, mas não é isto que está em questão, pois a comparação, como já aconselhava Marc Bloch, não há se de limitar aos semelhantes, pode e deve ser feita também, talvez principalmente, entre os diferentes. E o que há de comum em todas estas diferentes e exemplares ditaduras? A atividade consciente, a iniciativa construtiva. Os tiranos, temidos, mas amados. O medo não mais paralisa, ao contrário, enseja atividade febril, frenética, às vezes, juramentos de morte e dolorosos sacrifícios aos quais as gentes aderem, agora exaltadas, com alegria. O fascínio pelo Poder. O horror consentido. A submissão voluntária.

 

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea

Universidade Federal Fluminense/UFF

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