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CRÓNICA DO DOMINGO – “O Iceberg” – por Joaquim Palminha Silva

 

Iceberg é uma massa de gelo desligada das regiões polares, cuja parte visível pode atingir 200 metros de altura, mas que pode esconder uma parte imersa geralmente muito maior, cerca de “quartas quintas” partes do que se vê à superfície.

           

            Não sofre dúvidas de que a nossa integridade de Nação independente está “pelas ruas da amargura”, que o futuro da nossa Democracia sofre perigo, que é desfavorável à tranquilidade psíquica dos portugueses a situação presente das nossas instituições e, pior que tudo, que multidão de elementos da elite política preponderantes a diversos níveis, usam o Poder de Estado para extorquirem mordomias de vário tipo, dilatarem a corrupção e fazerem da acção governativa uma exclusiva ocupação em proveito próprio, através da angariação ilícita de dinheiro e bens materiais.

            Para embasbacamento do “gentio” e abastecimento de títulos de jornais, todos os meses rebenta um ou dois escândalos (ao mais alto nível) que se alicerçam em Bancos, Ministérios, Direcções-Gerais ou sectores dirigentes da actividade profissional, adubados por várias corrupções, descortinando fraudes, favoritismos e compadrios graves (mas patuscos), e fornecem toneladas de bambochatas para alimento das galerias do falatório idiota e, em concorrência com a patetice das intrigas do futebol, fazerem com que assistamos, impotentes e aparvalhados, ao triunfo insolente da podridão nacional!

              Se é grave que um ex-1º ministro tenha sido detido no auge de uma investigação criminal sobre suspeitas de fraude, corrupção, branqueamento de dinheiro, etc., muito mais dramático para a saúde da governação, pelo menos na última década, terá que ser forçosamente, queiramos ou não, saber que muitos actos de gestão pública foram praticados por este ou outro ex-ministro, não em favor da República, mas sim a pensar nos benefícios directos ou indirectos que esses actos governativos traziam aos seus autores. Tal será, por exemplo, o «Regime Excepcional de Regularização Tributária» (RERT), medida extraordinária que decretou três amnistias fiscais para quem, tendo dinheiro depositado em off-shores, se dispôs a transferir o capital para o País, pagando uma multa (5% sobre o seus depósitos) e, por isso, beneficiando de um inusitado perdão de toda a infracção fiscal inerente ao processo.

            No ponto onde se acham as adversidades e infortúnios da empobrecida população portuguesa, temos que reconhecer e recomendar a urgência extrema em proceder a averiguações sobre vários actos de gestão da República, pois estamos crentes que muitos serão social e economicamente ilícitos num Estado de Direito, moralmente condenáveis, porque são uma efectiva e insolente barbaridade praticada por indivíduos com uma mente perversa, doentiamente distorcida da sua normalidade. Tal é, por exemplo, a governamental extorsão de dinheiro dos vencimentos dos aposentados da administração pública, entre outros (na idade em que se enfrenta a doença e a consequente fragilização física), a que se acrescentou a retirada de subsídios anuais, a pretexto de contributo para pagamento de dívidas de Estado, que os infelizes idosos não contraíram…

            Neste trágico contexto, visível apenas na sua superfície, como um iceberg, as eleições futuras preparam decerto mais de uma desilusão. Não adianta votar nos mesmos agrupamentos políticos, de ideologia rasgada ou completamente cerzida pelo neoliberalismo, pântanos de miasmas e podridões já sofridos pela Nação…

            Um dilema sério está diante do Portugal.

            Continuar a vida do Estado e do País como até agora será marchar depressa não só para a bancarrota (onde já estamos!), mas para a carestia insuportável, para a miséria extrema, para convulsões sociais desordenadas e bárbaras. Neste preciso momento arrisca-se o destino da Democracia, do País e dos seus filhos, nomeadamente dos jovens. Portugal está prestes a suicidar-se, por intermédio de políticos subservientes aos grandes grupos económicos que, além do mais, se revelam corruptos e imorais!

            A única oposição possível a tudo isto é realizar a grande reforma administrativa, fiscal, bancária, económica, social e cultural, que este organismo doente exige para entrar na saúde e iniciar uma actividade próspera. Mas para tal é necessário fazer uma operação que, por isso, será melindrosa, para a qual é tão necessária a firmeza e prudência dos cirurgiões, como a coragem do enfermo.

            Mas quando começaremos a tratar desta urgente cirurgia, capaz de desfazer de vez o iceberg?

 

 

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