
Fuga da família real na Ericeira
Pode-se dizer que a partir das nove da manhã de 5 de Outubro de 1910 parecia não haver ninguém em Portugal que não quisesse ou não alegasse ser republicano, e, até mesmo, ter combatido na Rotunda ao lado de Machado Santos e dos seus carbonários.
No dia 1 de Dezembro, O Intransigente, jornal fundado por Machado Santos, dava a estampa o artigo «Revolucionários para arranjarem emprego», onde se pode ler o seguinte:
«Toda a gente esteve na Rotunda e se por acaso não foi nos dias 4 e 5 de Outubro, podia ter sido um qualquer outro dia.
É o caso de dois ilustres cidadãos que debaixo do comando do Sr. José Lourenço Flores, por lá apareceram no dia 6 para se utilizarem da cozinha económica que por lá se montou, visto terem fechado as outras, mercê dos cristianíssimos corações das senhoras fidalgas.
Esses «autênticos revolucionários» quiseram abancar também à mesa do orçamento e como a panela lhe não encheram foram pedir misericórdia à imprensa monárquica.
Muita gente imagina que isto da República é empregar toda a gente de afogadilho.
Sosseguem meninos.., uma coisa que levou 270 anos a escangalhar não se pode reconstruir em 55 dias.
Conhecemos esses revolucionários.., esses heroicos combatentes… para a heroicidade ser completa só lhes faltou terem… as pernas metralhadas.»
O corrupio dos «pensos rápidos» da política era de tal ordem que parecia haver mais portugueses em Portugal do que chineses na China.
Com o novo regime ainda sem o mês completado, o escritor Fialho de Almeida falava também sobre o assunto.
Fialho era nesta altura uma voz insuspeita de afetos ao novo regime. Encontrava-se bem casado, rico, e, apesar de ter sido autor de alguns dos escritos mais demolidores nos últimos anos da Monarquia, tinha vindo a evoluir no sentido deste regime, virando agora o seu extraordinário talento contra o que os novos dirigentes políticos iam mostrando, neste caso em relação ao «adesivismo»:
«Dia e noite os Ministérios regurgitam de pretendentes, alegando os «serviços» que prestaram e os martírios atrozes que sofreram. Os memoriais são montanhas de papel; e, se todos os que alegam ter-se batido na Rotunda e vir sofrendo perseguições desde a revolta do Porto, realmente citassem factos verdadeiros, a lista dos defensores autênticos das intentonas republicanas daria talvez o dobro da população de Portugal.»
A espantosa prosa do terrível panfletário que flagelara impiedosamente a Monarquia desabava agora com igual virulência e imperdoável contemplação sobre as novas cabeças coroadas do recém-estreado regime:
«Pela adesão em massa dos monárquicos ao novo regímen (e não há meio nenhum de a evitar), todas as roubalheiras e vícios da sua política passarão intactas para a República; e haverá que lhe juntar a cobiça feroz e a desesperada ambição dos republicanos, que se vai vendo não são melhores nem mais corretos que os seus antecessores.»
Fialho de Almeida entendia que num Pais, onde «o piolho é um símbolo, uma bandeira o farrapo, e um sistema de governo a mendicância», a pedinchice e o servilismo eram situações para bom proveito dos que estavam por cima:
«A tradição do Terreiro do Paço em matéria de cargos públicos, desde que a malandragem politicante que na monarquia teve nome de rotativos bloquistas e outros vários apodos de quadrilha ali sentou cavernas, é que o Estado só deve apaparicar os que chiam, fazem e desfazem eleições, atacam ou defendem Ministérios, sendo todos os demais cidadãos simplesmente ovelhas ranhosas, chair a canon, matéria coletável…»
Para o escritor a explicação era simples de dar:
«Há 75 anos que tudo em Portugal é resolvido e feito por políticos. E o resultado é este! Corrupção, ignorância, anarquia geral e marcado retrocesso em todas as representações da vida pública e privada.»
Raul Brandão, que intensamente sentiu a vida da República durante toda a sua trajetória, será outro dos grandes vultos da cultura portuguesa a verberar o aproveitamento leviano com que os dirigentes partidários abriram as portas aos apressados conversos à causa republicana. Para ele, o principal corretor deste engajamento «adesivista», foi Afonso Costa, que, sem rebuço nem pudor, acolhia «de braços abertos a pior escória dos partidos monárquicos – os que não tinham convicções e queriam continuar no gozo dos seus interesses.»
Machado Santos, entretanto, ainda com a mochila da Rotunda por desarmar, ia assistindo a este rosário de conversões e a todo o desenrolar do que estava a acontecer a sua jovem República.
Na receção na tarde de dia 8 de Outubro no Ministério da Guerra, no Terreiro do Paço, Teófilo Braga, então presidente do Governo Provisório, enaltece o principal obreiro do Cinco de Outubro e, levando-o a varanda do Ministério, apresenta-o ao povo:
– Eis a alma da Revolução e da vitória. Foi Machado Santos quem, nos momentos de maior perigo, incutia a todos que o rodeavam a coragem necessária para continuar a luta que foi tão gloriosa.
A apresentação ao povo tinha sido precedida de uma das estiradas e confusas digressões da enfadada e sonolenta filosofia, que tanto caracterizavam Teófilo Braga.
Do homem que passara tranquilamente instalado na sua casa os dias decisivos da Revolução e que a ela se referia mais tarde dizendo «que ouvira uns tiritos para o lado de Lisboa» – mas que era agora o chefe do primeiro ministério republicano – escutará ainda Machado Santos estas célebres palavras:
– O senhor é como um bom sapateiro que, depois de acabar a obra, a vai entregar ao freguês, mas tem o direito de ver o seu nome à esquina de uma rua.
Machado Santos riu-se e respondeu a Teófilo Braga:
– Olhe, senhor doutor. Eu estou a achar muita piada a tudo quanto se tem passado depois do 5 de Outubro…
Tinha 35 anos incompletos, este comissário naval de terceira classe, que nunca mais iria calar a sua voz de protesto até que as balas do Dente de Ouro a silenciem para sempre em 19 de Outubro de 1921.
