MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 22 – por José Brandão

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NO 5 DE OUTUBRO

Pouco faltava para a uma da manhã de dia 4. Do Centro Republicano de Santa Isabel, situado nas proximidades do quartel e onde combinara encontro com o grupo carbonário chefiado pelo civil Meireles, Machado Santos sai para cumprir a missão que lhe fora confiada. Apenas dispõem de catorze armas. Mesmo assim não hesitam, nem sequer esperam o quarto de hora que ainda falta para a hora combinada. Tomam Infantaria 16 onde os sargentos tinham sido já conquistados na totalidade por Machado Santos. Não muito longe dali, em Artilharia 1, o capitão Afonso Pala procura cumprir a parte que lhe coubera nesta jornada histórica. É ele a quem cabe dar ordem de fogo aos canhões que vão anunciar o início da revolução. Este está marcado para a uma da manhã.

Se em Infantaria 16 os carbonários não esperam pela hora, em Artilharia 1 ainda não era meia-noite e meia hora e já esses revolucionários civis estavam dentro do quartel. Porém, a tarefa de Afonso Pala encontra dificuldades com que não contava. A antecipação do ataque ao quartel de Campo de Ourique fizera acionara o alarme geral por parte do Comando Militar da Divisão.

Entretanto aquela hora na Casa dos Banhos de S. Paulo onde deveria de estar a funcionar o quartel-general do Diretório político do movimento já só se podia encontrar a bengala de Eusébio Leão e a espada do comandante Marinha de Campos!

Uma espécie de falso alarme – ou a ausência de convicção suficiente para deixar tranquilos os «comandos revolucionários» instalados na Casa dos Banhos de S. Paulo – lançara o pânico entre os conspiradores das termas balneares, indo cada um para seu lado em autêntico salve-se quem puder esquecendo-se por completo dos compromissos que os obrigavam a tarefas de apoio aos homens da «linha da frente».

Enquanto no Largo do Rato e na Rotunda uns tantos chefes de segundo plano iam expondo a vida a todo o género de riscos, os que dentro de algumas horas vão acotovelar-se na varanda da Câmara tratavam de procurar refúgio onde melhor calhasse.

Não se sentindo com especial vocação para esta modalidade do martirológio revolucionário os grandes chefes políticos republicanos cuidavam de pôr o corpo no seguro deixando a República para melhor oportunidade.

Afonso Costa e António José de Almeida depois de várias peripécias e deambulações acabam por ir parar a casa de José Cordeiro Júnior, em Algés, donde só saem no dia 5 com destino à varanda municipal lisboeta. João Chagas vagueia sem eira nem beira pelas ruas da cidade, certamente a pensar em mais outro 31 de janeiro que lhe tinha saído em sorte. Eusébio Leão volta ao seu consultório de urologista no Chiado e José Relvas, que durante várias horas anda de um lado para o outro pela beira-rio, ansioso por ver a Marinha entrar na revolução, acaba por alugar um quarto no último andar do Hotel de Europe, em pleno Chiado, muito perto da Câmara Municipal de Lisboa e de onde só sairá por volta das sete da manhã.

Seriam cerca de 7 horas da manhã do dia 4 quando a notícia da morte do almirante Cândido dos Reis chegou à Rotunda. O velho militar republicano e chefe carbonário aparecera morto, para os lados de Arroios. Suicidara-se ao julgar que a Revolução voltara a falhar.

No acampamento revolucionário a noticia causa grande abalo. Os oficiais presentes decidem reunir em conselho. Ao todo não chegam a ser uma dúzia. Na cocheira do palacete do conde de Saborosa reúnem duas vezes para avaliar a situação. Concluem que não há nada a fazer votam por abandonar o local e partem cada para seu lado. Há apenas um voto contra: Machado Santos.

Os que partem alegam que o plano geral tinha falhado e que o Governo podia dispor de forças mais que suficientes para esmagar a concentração da Rotunda. Os 4470 soldados e os 3771 polícias controlados pelo estado-maior monárquico chegavam e sobravam para dar cabo das quatro centenas de carbonários civis e militares que estavam no Parque. A Marinha não dava sinal de si. Os dirigentes políticos do Diretório tinham faltado nos locais combinados.

Agora sem oficiais, Machado Santos manda tocar a sargentos. Respondem nove. Estão para o que der e vier. São todos carbonários. Vão ficar na História: serão os comandantes dos menos de 200 militares que restam depois da saída dos oficiais. Alguns jovens cadetes da Escola de Guerra estão lá também.

Ao meio-dia e meia hora começam a chover as primeiras granadas que anunciam a chegada de Paiva Couceiro à frente das baterias de Queluz.

A pontaria não é de aprendiz de artilheiro. Caem em cheio sobre a primeira linha de fogo.

O duelo de peças é feroz e intensa a fuzilaria que envolve por completo a Rotunda.

O reduto revolucionário dispõe de oito peças para sustentar a sua defesa pesada.

As barricadas são aquilo que se pode arranjar: toscas, improvisadas, incapazes de resistir a um ataque a sério das forças monárquicas.

Por volta das quatro da tarde, as baterias de Queluz entendem que o melhor é voltarem para as frescas bandas da Serra de Sintra e com este ânimo põem-se a caminho da respetiva unidade.

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BARRICADAS NA ROTUNDA

Às oito e trinta da manhã de dia 5, Machado Santos desce pela Avenida a caminho do quartel-general monárquico instalado no Palácio do Almada, no Largo de S. Domingos. Vai acontecer o último ato do regime real.

«O herói levava a farda desabotoada, poeirenta, barba de três dias e só uma dragona.» No meio de uma multidão, que o arranca de cima do cavalo e o leva ao colo até a entrada do Palácio, Machado Santos vem acompanhado de uma guarda de honra de soldados, marujos e civis, «num desalinho impressionante, mas empunhando as carabinas com aquela decisão e desenvoltura de quem iria vender a vida pelo preço de um por dez.»

CARBONÁRIOS NO 5 DE OUTUBRO DE 1910

«Todos me tratavam democraticamente por tu, mesmo pessoas que eu nunca vira; todos desejavam tornar-se vistos por mim para mais tarde eu poder certificar que haviam estado na Rotunda! Mas os valentes, os heróis, esses quedaram-se muito sossegados à sombra das árvores como que envergonhados da vitória alcançada e que só ao seu heroísmo era devida!»

Portugal tinha já um governo republicano. Não o que fora escolhido nas discussões preparatórias da Revolução e muito menos pelos que lutaram pela vitória. «Quem proclamou a República do alto do edifício camarário lisboeta não foram os combatentes da Rotunda, mas os profissionais do aparelho partidário que ali mesmo se anteciparam às reivindicações dos setores combatentes.»

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