A Revolução do 5 de Outubro de 1910
A Bandeira Nacional Machado Santos A festa popular
Dois factores são determinantes, a meu ver, para explicar o sucesso do movimento revolucionário que eclodiu às primeiras horas do dia 4 de Outubro de 1910, em Lisboa: a persistência e a determinação de um líder, Machado Santos, e o concurso popular, justificado pelo descrédito do regime monárquico.
O dia 4 de Outubro de 1910 amanheceu bem cedo para Machado Santos. Pouco faltava para a uma da manhã quando saiu do Centro Republicano de Santa Isabel a caminho de Infantaria 16 e daí para a Rotunda.
Este dia revelar-se-ia longo, angustiante e decisivo para as quatro centenas de lutadores republicanos, civis e militares, aí entrincheirados que contavam com o escasso apoio de uma parte de Infantaria 16 e a quase totalidade de Artilharia 1. Mas valeu a tenacidade de um homem que teve a coragem de enfrentar o perigo.
Logo pela alvorada chega a trágica notícia: o almirante Cândido dos Reis, carbonário e chefe militar da sublevação, suicidara-se, julgando que esta havia falhado.” Os oficiais presentes decidem reunir em conselho. Ao todo não chegam a ser uma dúzia. Concluem que não há nada a fazer e votam por abandonar o local. Há apenas um voto contra: Machado Santos. Vestem-se à civil e partem cada um para seu lado. Um é teimoso e fica: Machado Santos, 2.º tenente de 2.ª classe da Marinha!”
Ao meio dia, começam a chover as primeiras granadas das temidas baterias de Queluz comandadas por Paiva Couceiro. Os revoltosos resistem, de tal forma que, a meio da tarde, as tropas de Paiva Couceiro recuam para as suas instalações na Serra de Sintra.
Os regimentos estacionados no Rossio, fiéis à causa monárquica, bem como a brigada instalada no Palácio das Necessidades podiam a todo o momento tomar a iniciativa e dar combate aos revoltosos. Afinal a Monarquia tinha do seu lado centenas, milhares de combatentes a crer nos generais, comandantes dos corpos armados e numerosos oficiais que, solenemente, haviam declarado, uma semana antes, que D. Manuel e a Monarquia podiam contar com a sua inteira lealdade, fidelidade e dedicação.
Felizmente para os sublevados as chefias militares apoiantes do regime “quedaram-se na atitude da mais completa imobilidade, uns tolhidos pelo alheamento e pela indiferença, outros paralisados pelo medo, mas a grande maioria por não estar disposta a arriscar a vida pela salvação de um causa e instituições irremediavelmente perdidas.”
Mas foi o troar da artilharia de bordo dos navios surtos no Tejo que anunciou a vitória das forças republicanas e a definitiva desmoralização do comando monárquico. Os “doidos” da Rotunda, liderados por Machado Santos, tinham mesmo conseguido pôr fim a oito séculos de Monarquia!
Para este final, foi decisivo o apoio popular. A população republicana de Lisboa afadigou-se, fornecendo às forças revoltosas informações valiosas e alimentação, colaborando no transporte do material e munições e encorajando-as com a sua presença e as suas palavras de aplauso e incitamento. Importantes se revelaram também os ataques das brigadas populares às forças apoiantes da Monarquia e a desorientação nelas provocada com a divulgação de falsas informações.
O escritor monárquico Joaquim Leitão confessa : “ Enquanto os regimentos fiéis às autoridades perdiam o contacto com o inimigo, a revolução tinha uma legião de correios e vedetas ao seu serviço. (…) Além dos automóveis, dos carros de praça e dos ciclistas, andavam peões, expondo-se à prisão e ao fogo para bem informar os revolucionários.
“ Ao cabo de pouco mais de trinta horas de luta armada nas ruas de Lisboa, a Monarquia Portuguesa regime político da Nação durante perto de oito séculos, ruíra estrondosamente”– conclui David Ferreira, autor que temos vindo a citar.
Jorge Lázaro
8 de Outubro de 2008



