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MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 46 – por José Brandão

Capítulo X

O QUE FALTA DIZER

Estava-se em plena ditadura militar. Da República restava ape­nas um lugar em Belém. Óscar Carmona é o presidente, Oliveira Salazar simplesmente ministro das Finanças.

A noite de 19 de Outubro de 1921 continuava a fazer vítimas.

É Berta Maia. O matutino monárquico e católico A Voz lança-se numa fúria desatravessada contra o livro que a viúva publicara. A campanha é de rara violência. O diretor, conselheiro Fernando de Sousa, procura por todos os meios rebater o que aparecia como acusação ao jornal A Época, antecessor de A Voz. Acusa a autora de estar ao serviço da Maçonaria. Mas… Como? Berta Maia é de convicção profundamente católica!… Que importa?! Estamos à entrada dos anos 30. A imprensa está sob controlo da censura mili­tar. Magalhães Lima faleceu sem ver chegar o ano de 1929. É o ano ómega para os 3153 maçons portugueses e para as 115 lojas e triân­gulos do Grande Oriente Lusitano Unido.

O movimento militar de 28 de Maio de 1926 não tinha caído de rompante sobre a Maçonaria. Alguns dos seus chefes, a começar pelo próprio Carmona, eram pedreiros-livres. Mas não era o suficien­te. Maçonaria e República tinham muito de identificação comum. Na revolta de 7 de Fevereiro de 1927 contra a Ditadura, tomaram já parte muitos maçons. Se algumas ilusões chegou a haver, estavam agora desfeitas. A queda da I República era também a agonia da Maçonaria portuguesa.

Na noite de 16 de Abril de 1929, o Grémio Lusitano, a sede ma­çónica, era tomado de assalto por elementos da Guarda Nacional Republicana e da Polícia. Era o início da grande perseguição.

Para Berta Maia os ataques do jornal A Voz não passavam de mais um escolho atravessado no caminho em que metera o resto da sua vida.

28 de Setembro de 1930. Num jornal de expansão nacional apa­rece publicado um anúncio de casamento «com senhora solteira ou viúva que não se importe de ir para África». A resposta é dirigida ao recluso n.º 102 da Cadeia Penitenciária de Coimbra. Abel Olím­pio é um nome que se vai esquecendo.

Corre agora o ano de 1935. De Coimbra volta a haver notícias dos homens da Camioneta Fantasma. Desta feita, é o ex-segundo-sargento José Carlos que vem levantar poeira. Escreve uma carta acusatória. Repete parte daquilo que já tinha sido dito por Abel Olímpio. Não se considera o grande culpado. Para ele «os respon­sáveis dos crimes são conhecidos. Apontam-nos a dedo nos meios políticos, nos gabinetes, nas ruas»

Fala de ocorrências estranhas durante o julgamento. Diz que «houve segredos entre o Sr. General Presidente e o Sr. Promotor».

Passavam 15 anos sobre a tragédia da Noite Sangrenta e da Ca­mioneta Fantasma. Continuava a crescer o somatório das suspeitas acerca do que se passou verdadeiramente naquela data.

19 de Outubro de 1966. Já lá vão 45 anos desde que a cidade de Lisboa viveu as horas do grande drama. Muito tempo decorreu, muita coisa mudou. Mas não se deixou ainda de falar da questão de 1921 e dos seus mistérios.

O jornal monárquico A Voz diz o que pensa: «Foram presos e julgados alguns tripulantes da Camioneta Fantasma. O cabo de marinheiros Abel Olímpio, o Dente de Ouro, e outros foram condenados, mas nunca se averiguou se alguém, de mais alto, organizou e comandou a Noite Sangrenta.»

E A Voz terminava a recordação da efeméride, de quase meio século, servindo-se das mesmas palavras com que A Época rubricava as suas reportagens quando decorria o julgamento em 1923: «Quem matou? Quem mandou matar?»

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