MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 16 – Por José Brandão

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O patamar e o corredor da escada estão a abarrotar de gente fardada. São para aí uns dezoito, entre marinheiros e guardas-republicanos, que não escondem as intenções da sua vinda. Apontam-lhe as espingardas de baionetas nuas encaixadas na boca.

Vinham buscá-lo porque era preciso ir ao Arsenal prestar umas declarações… Alguém o queria lá – dizem.

– À ordem de quem? – Procura saber o prestigiado oficial da Marinha.

– À ordem da Junta Revolucionária! – Responde de pronto o Dente de Ouro.

José Carlos da Maia não parece disposto a acreditar:

– Então vão dizer ao Sr. Coronel Manuel Maria Coelho que mande cá um oficial da minha patente para me acompanhar.

– Não pode ser! – Contrapõe o cabo marinheiro. – Tem de vir já. E depressa, que se faz tarde!

– Pois bem. Vou! – Decide o distinto capitão-de-mar-e-guerra – Mas preciso vestir outro fato, calçar outros sapatos.

– Vai bem assim. Não precisa vestir-se melhor – dita o cabo Abel Olímpio.

Carlos da Maia insiste. O Dente de Ouro segue-o até ao quarto. Berta Maia, em grande aflição, observa o que se está a passar.

Com o filho ao colo, começa a perceber o que pretendem os invasores da sua casa.

Apertados os sapatos, Carlos da Maia presta-se a sair.

– Vamos! – Determina o Dente de Ouro, ao mesmo tempo que agarra o braço do superior.

– Larga-me! – grita-lhe o destemido oficial do 5 de Outubro de 1910.

Carlos da Maia levanta-se e caminha para a porta acompanhado pelos captores.

Berta Maia, desvairada, interceta-lhes a passagem e cai de joelhos, erguendo o filho nos braços, numa tentativa desesperada de comover os assaltantes:

– Senhores marinheiros! Piedade! Senhores marinheiros! Tenham dó deste menino! Por tudo, não me levem o meu marido!

O marido, agarrando-a pelos braços, grita-lhe:

– Berta, levanta-te… Uma senhora não ajoelha diante de insubordinados…

Alguns dos marinheiros parecem tocados pela cena a que estão a assistir:

– Com mulheres assim não há nada a fazer… – ouve-se comentar entre os presentes.

– Rapazes! Vamos embora! – propõe um dos marujos.

– Fique, meu comandante… – avança uma voz do grupo.

A esperança voltava àquela casa da Rua dos Açores. Porém, não iria passar de uns instantes de ilusão.

– O quê?! Que é isso? há de ir…! Vocês já não se lembram de que foi por causa deste… que os marinheiros foram deportados para África, no tempo do Sidónio, a ganhar um pataco por dia. Também a minha mãe morreu de dor quando me mandaram para lá e ele não teve pena de mim.

Era o Dente de Ouro que assim falava. Mentia totalmente. A mãe ainda era viva e ele nunca fora deportado.

Disposto a levar até ao fim o seu «trabalho», aproveita a hesitação provocada pelas suas palavras e fila Carlos da Maia pelo braço, lançando-o violentamente para dentro da camioneta.

Berta Maia corre à janela. O marido está dentro da Camioneta Fantasma.

Com o filho nos braços, ela grita da janela a sua despedida:

– Adeus, meu José! Adeus, meu amor!

A viatura sinistra atravessa Lisboa sem qualquer obstáculo a impedir a sua tenebrosa marcha. A cidade apresenta-se deserta, depois de ter passado por mais uma revolução que a Camioneta Fantasma não tinha ainda dado por terminada.

– Cá está o Barbas de Chibo! – grita o Dente de Ouro ao aproximar-se da entrada do Arsenal.

Apesar da hora, o local está pejado de insurretos.

– É preciso liquidar este bandido! Foi ele quem deportou os marinheiros! – Continua a insistir o cabo Olímpio.

O condutor da camioneta volta a insurgir-se contra o que está a ver. Diz que, como militar e ex-combatente da Flandres, não colabora em crimes.

Os grupos cercam o carro e aplaudem a ideia da liquidação do oficial aprisionado. Abel Olímpio, sentindo as costas quentes, impõe-se ao renitente motorista:

– Pr’á frente! – ordena Abel Olímpio ao abrir-se o portão do Arsenal. – Pr’á frente, ou tiro-te a vida!

A camioneta atravessa o túnel de entrada, no meio de grande algazarra. Junto ao pavilhão dos oficiais de serviço, vários graduados vêm à porta ver o que se passa. Entre eles está o contra-almirante Câmara Leme, o capitão-de-fragata Francisco Luís Ramos e mais alguns capitães e tenentes. O segundo, Luís Ramos, tinha sido arvorado pela Junta Revolucionária como chefe das forças do Arsenal.

Carlos da Maia apeia-se da camioneta. Está literalmente cercado por praças amotinados. Um dos oficiais grita-lhe:

– Comandante! O que vem aqui fazer?

– Eu sei lá! Trouxeram-me preso.

Assistindo ao diálogo, o oficial responsável pelo Arsenal recomenda:

– Então, o melhor é recolher ao Vasco da Gama.

– Porquê?

A resposta ao capitão José Carlos da Maia vem decidida da boca de uma das praças insubordinadas:

– Ainda o perguntas? Fostes tu que nos mandaste para Africa!

E, dito isto, avança para o oficial de carabina em riste. Carlos da Maia simula meter a mão ao bolso, como para tirar uma pistola. Uma outra praça, que se encontra mais perto, aplica-lhe uma tremenda coronhada no peito. Em menos de um segundo, tem toda a turba, com soldados e civis à mistura, a apontar-lhe as armas, decididos a liquidá-lo.

Os oficiais de serviço esfumam-se para dentro do pavilhão. Soam tiros. Atordoado pela violência da pancada, Carlos da Maia tenta refugiar-se na sala dos oficiais.

Os amotinados perseguem-no, disparando sem parar. O valoroso marinheiro do 5 de Outubro de 1910 nem dá pela morte que o espera. Alguém, do alto, acerta-lhe com um tiro de pistola que lhe rebenta o cérebro. Uma bala atinge-o na base da nuca e dá-lhe morte instantânea.

Com a sua morte estava dobrada mais uma página desta noite horrível de 1921.

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