No quarto n.º 3 do Arsenal do Terreiro do Paço estava consumado o primeiro capítulo da Noite Sangrenta, de 19 de outubro de 1921.
António Granjo, o presidente do Governo legítimo da República, é assassinado no Arsenal de Marinha, cujos portões se haviam também aberto catorze anos atrás para deixar entrar o rei D. Carlos morto e o príncipe agonizante.
A muito custo os maqueiros da Cruz Vermelha conseguem arrancar o cadáver de Granjo às iras da turba alucinada, que em verdadeira loucura não para de aclamar o sanguinário feito do clarim da GNR.
O sangue espalhou-se pela parede, cobrindo-a com uma mancha que atingia mais de metro e meio de altura. No sobrado é bem visível a fenda aberta pela espada do clarim. À esquerda de quem sobe a escada veem-se duas enormes brechas. No outro lado da parede, que forma o ângulo, há mais quatro brechas, outras quatro de carabina da Armada e duas de pistola. O corpo de António Granjo apresenta pelo menos nove ferimentos mortais, para além de um número incalculável espalhado pelos braços e pelas pernas. Chegou-se a falar que teriam sido disparados mais de quatrocentos tiros contra o malogrado dirigente republicano.
Mas a sede de sangue não estava bem saciada.
Ainda o cadáver de Granjo não tinha entrado na Morgue e já a Camioneta Fantasma voltava a sair do Arsenal.
Por todo o lado só se ouve gritar nomes de pessoas que devem ser presas. O condutor da camioneta não parece disposto a continuar a participar na matança:
– Não vou a parte alguma mais sem falar com o meu comandante – afirma o motorista Rogério Augusto da Silva.
No Terreiro do Paço fala com o tenente Mergulhão, dando-lhe conta que os amotinados querem prender José Carlos da Maia, oficial da Marinha com papel destacado na Revolução de 5 de Outubro de 1910 e antigo ministro ao tempo dos Governos de Sidónio Pais em 1917 e 1918, e de José Relvas em 1919.
O tenente da GNR conferencia com outros oficiais presentes no local e, depois de perguntar ao motorista se tinha gasolina e câmaras-de-ar, ordena-lhe:
– Segue as ordens do cabo.
Desta vez a caçada vai sob o comando do Dente de Ouro. O primeiro-cabo Abel Olímpio morava na Rua da Bempostinha, n.º 11, e era, até então, uma figura totalmente apagada, sem história para registar. Naquela noite de 1921 estava-lhe reservada saída para a berra do mais elevado tom. Ia protagonizar algumas das cenas de maior crueldade que passaram a constar no registo histórico português, revelando-se como «um dos mais hediondos criminosos da nossa História.»
Um colossal fracasso em matéria de tudo o que era a ordem e a estabilidade da República Democrática tinha aberto a porta aos Dentes de Ouro, que surgem como por magia nestas alturas de «acertar contas».
A camioneta arranca em direção à Rua das Janelas Verdes, onde o Dente de Ouro espera filar em José Carlos da Maia.
Chegado ao local, constata que não acertara no objetivo.
– O meu menino já aqui não mora. Mudou-se para a Rua dos Açores – esclarece, com a melhor das intenções, a velha ama que vem à porta atender os inesperados visitantes.
Rapidamente o Dente de Ouro manda corrigir a rota e embica na direção apontada. Espera ser mais feliz nesta segunda tentativa de apanhar a sua presa.
Na Rua dos Açores a vida decorria com a normalidade própria daquela hora da noite. No primeiro andar habitado por José Carlos da Maia a ceia terminara há poucos minutos. Acompanhado da esposa, dirige-se para o quarto onde o filho, de poucos meses, dorme no berço. Berta Maia sentou-se frente ao toucador e começou a arranjar os cabelos. O marido contempla com ternura os gestos da mulher, grávida já pela segunda vez.
– Que belos cabelos tens Berta! Ó Berta! Que pena não te ter conhecido quando tu tinhas 18 anos. O tempo que nós perdemos!…
Carlos da Maia beija o filho e a esposa, observando, paternal:
– São quase onze horas. São horas de recolheres.
De repente, escutam o barulho de carro que para ruidosamente junto à porta. Daí a nada ouvem vozes e o soar de passadas em tropel pela escada acima.
– O que será? – Interrogam-se, intrigados com semelhante agitação àquela hora da noite.
Subitamente, a porta estremece sob o impacte de duas fortes pancadas.
– Eu vou abrir – disse Berta.
– Nem pensar. Sou eu quem vai.
E, aproximando-se da porta, agora mais incomodado do que intrigado, ouve a pergunta: