MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 50 – por José Brandão
carlosloures
Sobre a Noite Sangrenta de 1921.
É certo que a confusão generaliza-se sempre que se pretende aprofundar o que está por detrás desta noite. Porém, existem algumas evidências que permitem conclusões de considerável importância.
É o caso dos heróis republicanos assassinados nessa noite, em que pelo menos duas ou três referências são comuns a esses homens.
A primeira é, obviamente, a própria morte que os atinge sob a mesma fúria assassina.
A segunda é, historicamente, a condição de qualquer deles ter pertencido à Carbonária Portuguesa.
A terceira, e talvez a mais interessante, é a de politicamente todos os três terem sido sempre adversários firmes do Partido Democrático.
– Mas quem mandou matar?…
– Monárquicos? Republicanos? Ambos?
Eis as respostas apuradas ao fim de dezenas de anos e de largos milhares de páginas escritas sobre o assunto:
«Era monárquico o diretor da Imprensa da Manhã, jornal que preparou a atmosfera que tornou possíveis os crimes, monárquicos eram os que financiaram, monárquicos os cúmplices da ‘conspiração da faca e alguidar’ onde, pela primeira vez, apareceu a figura sinistra do Dente de Ouro…» – Carlos Ferrão.
«Ah! As tremendas responsabilidades da República! Todos os assassinos ferozes, no ato de matar, se gabavam de que eram ‘bons republicanos’. Dir-se-á, porém, que a República não é culpada dos crimes do 19 de outubro, e ainda de muitos outros. Mas, se assim é […], se lhes não pertencem as responsabilidades da balbúrdia, do saque e da barafunda, que desde 1910 têm afligido o País, como é que os republicanos tornam responsável a Monarquia por todos os vícios que a esta assacam e por todos os maus atos de que acusam os monárquicos?!…» – António Cabral.
«Quem podia beneficiar com a chacina do 19 de outubro? Os Republicanos? Mas como, se eles foram as suas principais vítimas e o seu regime o mais prejudicado? Os Monárquicos? Sem dúvida, porque além dos claros precedentes revolucionários, o próprio Dente de Ouro confessou que assim era, pois tinha recebido dinheiro do monárquico padre Lima.» – Sá Cardoso.
«Das declarações que fizeram [Dente de Ouro e outros condenados], aliás sempre confusas e até contraditórias por vezes, tirou [Berta Maia] a conclusão de que proviria duma ação de monárquicos a génese do assassinato do marido. Contudo, se alguma aparência de razão ainda poderia justificar essa origem quanto ao homem que fora um dos mais ativos elementos da revolução que implantou a República, bem como contra Machado Santos por igual motivo, como aceitá-la para os restantes?» – Damião Peres.
«Falava-se em vingar a morte de el-rei D. Carlos, empalmar o movimento que se preparava, liquidando os republicanos, dando-lhes caça… sobretudo aos do 5 de Outubro…» – Berta Maia.
«Aniquilamento dos republicanos do 5 de Outubro de 1910? Vamos! Os assassinados na Noite Sangrenta não podiam merecer a hostilidade dos monárquicos, nem em razão do passado, nem em vista da sua eficácia atual para a defesa da República. O furor dos assassinos liquidara homens marcados, na sua maior parte, e merecedores de ódio como simpatizantes do sidonismo. Não se tratava de outubro de 1910, mas de dezembro de 1917 […] Se as matanças de 19 de outubro de 1921 foram uma vingança, terão de ser referenciadas à República Nova (sidonismo) e não ao 5 de Outubro […] Ao contrário do que Berta Maia supunha, o absurdo supremo fora a morte de seu marido por obra dos amigos e não dos adversários da situação dezembrista.» – Jesus Pabón.
«Para lá das responsabilidades nos assassinatos do 19 de outubro, o que não admite dúvidas é a existência de uma estratégia reacionária que joga pelo pior […] Tal estratégia aflora repetidas vezes desde o 5 de Outubro e encaixa cem por cento com as hipotéticas responsabilidades que poderiam caber à reação na noite do 19 de outubro. Um certo historiador alegou: matar os republicanos? Mas se as vítimas representavam a ordem e a moderação na República! A resposta é bem simples: precisamente por isso.» – Hipólito Gomez.
«Obra da demagogia, representada pela extrema-esquerda do Partido Democrático, que ao grupo popular deu apoio, e que entendidos com a Confederação Geral do Trabalho…» – Rodrigo de Castro.
«O plano criminoso foi elaborado pela Ação Católica, tendo como testa de ferro o padre Lima, do jornal A Época.» – Edgar Rodrigues.
«Será bom lembrar os dois documentos maçónicos encontrados nas algibeiras do pobre António Granjo, depois de morto e esburacado por baionetas e balas.» – SNP.
«De facto, esta poderosa associação […] interveio, desde o seu início, na organização do 19 de outubro. Não oficialmente. Dominado ao presente pelo Partido Democrático e, dentro dele, pela fação extremista, o Grande Oriente Lusitano Unido não teve, no entanto, uma interferência precisa, credora das correlativas responsabilidades […] Advertida […], afastou-se da parte propriamente revolucionária do movimento antigovernamental […] E os antecedentes do 19 de outubro já tão ameaçadores se mostravam que […] nasce o que apareceu a público com a designação de Movimento Nacional de Salvação Pública […] A Maçonaria nada mais fez. O documento encontrado no fato de António Granjo, convidando-o a abandonar o poder, foi o seu derradeiro ato. Era um aviso. Há quem o considere uma ameaça.» – Consiglieri Sá Pereira.