MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 49 – por José Brandão

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EPÍLOGO

«Tu não nasceste para outra coisa. Matarás teu próximo quando ele te sirva de estorvo, matarás teu pai se ele te negar o pão que o estômago faminto reclama. Pesa sobre ti a mais execranda maldição. Caim foi teu avô, Impéria foi tua avó, e tens dentro de ti a seiva imunda que faz nascer o louco e o assassino, o cobarde e o regicida.»

Albino Forjaz de Sampaio, 1911

 «É uma malandragem do pior que há. Todo o português é uma coisa! Do pior que há em questões de falta de caráter, de safadeza, de enganar os outros! Do pior que há.»

Agostinho da Silva, 1984

«…merda de pátria, azar ter caído aqui, … a isto chamam país?…»

Almeida Faria, 1975

«- Porque não abalamos todos, mas todos? Quem paga o sacrifício de estarmos para aqui esquecidos? Qual é a nossa recompensa?»

Assis Esperança, 1932

«FORAM OS PORTUGUESES? – FORAM»

Depois de apresentados os acontecimentos que compõem este trabalho chega agora a altura de avançar para conclusões.

Mas, que conclusões? Que avanços?

Não está já percebido que o que se podia saber se esgotou nos interesses e no tempo?

Emergindo desse tempo e como se pôde verificar no decorrer da narrativa, são factos que têm tanto mistério e tanta intriga que moderam qualquer intenção de novos esclarecimentos. Contudo, quer pela dimensão do que sucedeu e das consequências que teve, quer pelo que ficou por suceder e pelas consequências que não teve, abordar acontecimentos como os presentes exige uma ousadia capaz de ultrapassar muito daquilo que nos tem aparecido como autêntico e atestado.

Uma abordagem distanciada e desapaixonada da história das últimas décadas do século XIX e das primeiras do século XX revela realidades muito diferentes das que os simplismos emotivos nos podem apresentar. O nosso olhar sobre o passado, mormente aquele que está ainda tão próximo, alargou-se, aprofundou-se e objetivou-se. Surgiram mais informações, revelaram-se novos contornos, possibilitaram-se outras pistas. Mas, ao problematizar os acontecimentos aqui expostos, uma série de novos quesitos aparecem:

Porque foi assassinado um Rei e abolida com tanta facilidade uma instituição com séculos de identidade nacional? Como e por que razão se fez tão facilmente a República em 1910?

Porque foi assassinado um Presidente que tantos adoravam e que foi o único eleito pelo Povo durante a I República? Como e por que razão tudo isto aconteceu em Portugal?

Porque foi assassinado um chefe de Governo e embargada sem grande dificuldade uma esperança de viver em que muitos acreditavam? Como e por que razão se desfez tão facilmente a República em 1921?

Equacionam-se portanto algumas dúvidas cuja solução é necessária à melhor compreensão das vicissitudes por que passou o País no começo do século XX:

Que causas determinaram a crise das instituições políticas nas épocas em que decorre cada um dos acontecimentos relatados?

Com o liberalismo monárquico, havia efetivamente decadência do País? Com o parlamentarismo republicano, houve de facto melhoria na vida dos Portugueses?

Qual poderia ter sido a evolução portuguesa nos dias de hoje se não tivesse sucedido este rosário de tragédias?

Se o Regicídio é o prenúncio do fim da Monarquia, a Noite Sangrenta é o adivinhar do fim da República.

E o Sidonismo será, em alguma leitura, uma espécie de meio-termo entre estas duas formas de governar. Nas palavras de Fernando Pessoa, Sidónio Pais foi um Presidente-rei.

Morreu um Rei que reinava. Um Presidente que presidia. Um Chefe de Governo que governava. Um foi assassinado quando chegava a Lisboa em 1908. Outro quando partia de Lisboa em 1918. E outro porque estava em Lisboa em 1921.

Será possível ligar estes três eventos a uma causa comum ou, pelo contrário, devem ser vistos como atos separados?

Tentando compreendê-los numa perspetiva de conjunto, podemos chegar a conclusões de significativa importância.

Opiniões idênticas, apontando para a ligação dos três eventos, estão presentes em muitos outros escritos.

 

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