MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 44 – por José Brandão

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Imediatamente após conhecimento dos crimes da Noite Sangrenta, a revista Ilustração Portuguesa fez publicar um editorial que dizia o seguinte:

 «A ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA E OS ACONTECIMENTOS

O número de hoje da Ilustração Portuguesa é um número revolucionário, um número que não teve tempo de se arranjar, de se vestir, um número sem cor, um número sem rouge, um número alvoroçado que atira fotografias, como argumentos, que esquece o bâton, que esquece a frivolidade, que se esquece de ser magazine, para chorar, para chorar bem alto, sem receio de que venham proibir-lhe as lágrimas, a morte desses três portugueses de lei, esses três homens que cometeram o nefando crime de pôr as suas vidas ao serviço da Pátria. Todos eles morreram pobres, morreram abandonados, abandonados do seu próprio ideal, esse ideal que, pelo seu esforço heroico, chegou a ser uma realidade em 5 de Outubro, mas que, pouco a pouco, se afastou, se diluiu, maltratado pelos homens, apagando-se, apagando-se cada vez mais, até desaparecer completamente na noite de 19 de Outubro, a noite mais trágica da República, a noite em que este povo começou a desconfiar de si próprio, a noite em que a dúvida – a ver se o coração ainda lá estava…

Perdemos tudo: os heróis, os santos, as certezas e os sonhos. Só nos falta agora perder o povo, este bom povo de Portugal que meia dúzia de feras pretende caluniar, atribuindo-lhe instintos que ele não tem, abalando-lhe o seu prestígio de povo amorável, de povo alegre e feliz, povo que canta e dança todo o ano, um povo que é a cigarra dos povos…

Porque foram mortos António Granjo, Machado Santos e Carlos da Maia? Porque eram honestos, porque eram bons, porque tiveram a ingenuidade de supor que a sua terra lhes agradeceria tudo quanto fizeram por ela… Jornais há que se atrevem ainda a falar nos erros políticos destes homens, como se houvesse alguém em Portugal que não tivesse cometido erros, que não tivesse contribuído para pôr mais alta esta fogueira de ódios em que a Pátria se consome. Amar a Pátria, procurar salvá-la, mesmo quando esse fito não se consegue, não é um erro, não é um crime: é um dever. Se todos nós fizéssemos como António Granjo, Machado Santos e Carlos da Maia, se todos nós puséssemos a nossa atividade, o nosso esforço, a nossa inteligência, ao serviço da Pátria, talvez já estivéssemos salvos, talvez de entre nós todos já tivessem surgido os homens que nos são precisos, os detentores da Verdade… A sinceridade das intenções dessas três belas figuras da República, melhor ainda, da Pátria, está na modéstia das suas vidas, na pobreza em que as suas famílias ficaram. Um político que morre pobre tornou rica a sua terra.

O que motiva este ódio, o que motiva este rancor de todos os dias, de todas as horas, este dilúvio de sangue, se todos nós, monárquicos e republicanos, estamos a combater pelo mesmo ideal, se a nossa ânsia é a mesma, a ânsia de encontrar uma solução para a Pátria?

O que se lucrou com a morte daqueles três heroicos portugueses? Apenas isto: que passasse a haver menos três homens de bem em Portugal!…

Há expressões, há gestos, há atitudes que não enganam. Machado Santos, António Granjo e Carlos da Maia pertenciam ao número daqueles homens sobre quem não pode haver dúvidas. Machado Santos era um sincero, um bom, para quem a República existia como Deus existe para certos devotos: com forma humana. A República era a sua paixão, a sua filha. Ele sabia-lhe a cor dos olhos, ele acariciava-lhe as tranças ao pronunciar-lhe o nome, ao separar-lhe as sílabas… Machado Santos era um sentimental. Ele tratou sempre os seus inimigos com o maior respeito, como se eles fossem os seus melhores amigos… Em todas as revoluções, em todos os movimentos, era dos seus lábios que saía sempre a primeira palavra de piedade, a primeira palavra de ternura para com os vencidos.

António Granjo era um caráter, uma grande alma, que tinha na sua honra o seu maior orgulho, que andou lá por fora com Portugal ao peito, este Portugal que em seu peito foi também alvejado…

Carlos da Maia era um bravo marinheiro, um amigo íntimo do mar, que sonhou toda a vida com a República, como as crianças sonham com uma terra encantada… Há uma frase de Carlos da Maia, após a revolução de 5 de Outubro, que é a sua vida toda em meia dúzia de palavras, uma vida branca, uma vida limpa:

– Mãe, podes beijar-me… Eu não matei ninguém…

Já que não lhes pudemos salvar as vidas, salvemos as suas memórias. António Granjo, Machado Santos, Carlos da Maia, Freitas da Silva e tantos outros não mereciam a morte que lhes foi dada. Matá-los, foi o mesmo que ensanguentar a Pátria. É preciso ter cautela… Os assassinos de António Granjo, Machado Santos e Carlos da Maia podem vir a parecer-se, singularmente, com os assassinos de Portugal…»

 

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