Dizia mestre Aquilino Ribeiro, tingindo de ironia muito sua, a prosa sobre antiguidades: «Não posso ver um farrapo impresso que não se me sobressalte a curiosidade», pois assim estou eu também, ao topar com um Cavaco, natural de Baleizão, termo de Beja, «mestre examinado na faculdade de alveitaria de gado Vacum» tal como se atesta no frontispício do livro.
Manuel Martins Cavaco (este era o nome do alveitar) viu a sua obra impressa «com todas as licenças necessárias», saiba-se desde já, na oficina da Universidade de Évora no ano de 1709! – Nem mais!
Havia então um Cavaco que merecia ver o trabalho de uma vida impresso pela academia dos reverendíssimos padres jesuítas, ainda que fosse livrinho de 56 páginas!
Como natural de Baleizão, foi a sua veia poética autorizada pelo Santo Ofício em 22 de Novembro de 1708, saindo no livro desta forma um pouco atamancada: «Esta arte que
Todavia, este nosso Cavaco mostra-se duma extrema prudência na cura do mal de rendimento. Nada de espicaço de aguilhão ou estalo de azorrague… Diz ele, doutoral, «que se dêem bebidas de solda e mel…», nem mais! Para os desconhecedores que possam vir a imaginar que a solda fosse metal castigador, fiquem sabendo que solda é molugem, planta boa para tisanas, muito apreciada por herbanários e boticários de outros tempos. Parece que o homem era sábio, pois que o cavaquismo na “ciência” da alveitaria durou mais de um século, dado que em 1815 os prelos de tipografia de Lisboa, voltam a editar a obra.
Caso pouco estudado, talvez, estamos em crer que este “nosso” Cavaco deve ter sido o pioneiro dos estudos veterinários da Universidade de Évora e, nem que fosse como rendida curiosidade, deveria o seu nome ser dado a uma artéria urbanizada de Valverde… Este Manuel Martins Cavaco foi seguramente um refinado observador, pois para o mal de ronqueira, manda o prestável alveitar que se deite nas ventas da rês «pela manhã mel e pela tarde vinagre»! Aqui vai o título completo da obra editada pela Universidade de Évora: «Arte de curar os bois, em que se declaram quarenta & sete enfermidades, a que está qual quer rez Vacuã sogeita.»!
Entretanto, saibam que o alveitar entendia como “doença” não ser cada animal como os demais. Assim, recomendava: «Como se vir que a rês se aparta do mais gado a faz os mais efeitos que todos sabem faz uma cousa douda, convem que logo se sangre à primeira sangria no rabo; e como pela maior parte não sobrevenha este achague se não a gado novo. Necessita de mais sangrias […]». Por tudo isto, de fonte limpa e confirmada, só conheço um Cavaco, o alveitar natural de Baleizão… e mais nenhum!

