LIVRO & LIVROS – Livros desaparecidos – 1 – por Joaquim Palminha Silva

Nesta curta série de oito artigos, Joaquim Palminha Silva fala-nos de livros desaparecidos. Obras de que há notícia de terem sido escritos, mas dos quais ninguém encontrou vestígios, nem cópias manuais ou impressas, nem manuscritos. Incêndios, sismos, catástrofes diversas podem explicar estes desaparecimentos.livrolivros22

«Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos

todo o tempo que transcreveu até nós desde

o dia em que ele foi escrito. Por isso convém

manter o culto do livro.»

– Jorge Luís Borges (24 de Maio de 1978).

 

            A longa série de livros desaparecidos em Portugal, que teve início no século XV, continuando até quase aos nossos dias, é suficientemente dilatada para assombrar os espíritos interessados. Temos notícias dispersas do sumiço de livros, praticamente acidentais, disseminadas e dissimuladas em bibliografias de circunstância, catálogos comemorativos e mil e um in memoriam. Do que não temos notícia (tanto quanto pudemos apurar) é da quantificação e qualificação desses livros. Isto é, da única forma que nos pode possibilitar a dimensão aproximada do fenómeno.

            Imaginámos, pois, que os livros desaparecidos mereciam uma identificação de autor e seu respectivo título e, assim, entregamo-nos a indagar do seu hipotético conteúdo, da eventual existência no tempo e no espaço e, naturalmente, da sua curta vida. O levantamento não resultou exaustivo, porque para isso não dispomos dos meios adequados, mas crentes de que esta limitada investigação pode levantar uma ponta do véu, aqui a registamos, certos de que estamos a percorrer uma corrente de rio turvo, que pode provocar uma emoção conformada ou um saudável jacto de cólera, da parte daqueles que se importam com estas coisas!

*

            Fernando Colón, filho de Cristóvão Colombo, foi abastado comprador de livros que aliou a essa rara capacidade para a época, o desejo de adquirir obras para as salvar do seu habitual desaparecimento. Em 1866 é dado público conhecimento, através do bibliófilo Bartolomeu J. Gallardo, do conteúdo da biblioteca do filho do descobridor da América, composta por livros impressos e manuscritos. O próprio bibliófilo fez o catálogo da sua livraria, descrevendo e identificando cada um dos livros com cuidada minúcia. Na valiosa Biblioteca Columbina, ainda hoje manancial valioso para soma considerável de investigadores, apesar das depredações dos homens e desgaste do tempo, encontrava-se no século de quinhentos um manuscrito em castelhano, com o título «Secreto de los Secretos de Astrologia», cuja autoria era atribuída ao Infante D. Henrique. Porém, os inventários posteriores desta biblioteca renascentista (1684 e 1783) já não mencionam a sua existência, sendo dado como desaparecido. O historiador e poeta sevilhano, Gonzalo Argote de Molina (n. 1549) também possuía na sua língua uma cópia do manuscrito, apenas com ligeira alteração no título: «Secreto de Astrologia por el Don Enrique de Portugal». Entretanto, a livraria de Molina veio a ser dispersa e, novamente, o paradeiro do manuscrito se deu como desconhecido. Eis, pois, um livro que desaparece “duas vezes”. (vd. Joaquim de Carvalho, Obra Completa, II «História da Cultura», IV volume, ed. Fundação C. Gulbenkian, Lisboa, 1893).

            António Galvão (1490?-1557), cronista-mor de D. Afonso V e governador das Molucas, administrou essas terras e gentes, segunda consta, com moderação sincera, coisa pouco vulgar nesse tempo em que se puxava da espada por “dá cá aquela palha”… Uma obra sua, intitulada «História das Molucas, da Natureza e Descobrimento […]», dividida em10 livros (não se consegue apurar qual a dimensão destes livros), foi entregue pelo próprio a Damião de Góis. António Galvão foi sempre, como fidalgo, um escritor, e só como escritor é que foi um grande fidalgo. Natural, portanto, que houvesse procurado alguém da sua particular simpatia intelectual para lhe resguardar a obra. Todavia, após a morte (algo misteriosa) de Damião de Góis, esta obra desapareceu. Qual a “perigosa” significação, alcance cultural e político desta obra?

                                                                                                                                                                                                                                                                  (continua)

Leave a Reply