ESPAÇO DE CABO VERDE – CHIQUINHO, DE BALTASAR LOPES: UMA OBRA DE REFERÊNCIA DA LITERATURA CABOVERDIANA – por Manuel Simões
carlosloures
A recente edição facsimilada do romance, reproduzindo a primeira, de 1947, das Edições “Claridade”, veio propiciar-nos a releitura de uma obra que marcou a narrativa caboverdiana como novidade ficcional contemplando o universo social das ilhas de Cabo Verde. Na verdade, este romance surpreende ainda hoje pela frescura e invenção de uma escrita que incorpora naturalmente expressões e formas sintácticas da língua crioula, facto tanto mais importante se considerarmos que se trata de uma narrativa terminada em 1938. Já o disse Manuel Ferreira: «É legítimo (…) considerá-lo pioneiro na busca de processos para a construção de novas línguas no espaço africano de expressão portuguesa».
O romance narra o itinerário do protagonista, Chiquinho, desde a infância na ilha de S. Nicolau, onde estudou no Seminário as “matérias do liceu” (5º. ano), até à idade adulta, marcada pelas experiências da ilha de S. Vicente, onde frequentou o Liceu e concluiu o 7º. ano. Aqui, entra em contacto com o grupo de Andrèzinho, o “Erudito”, que redigira o programa do Grémio Cultural Caboverdiano, o qual propunha uma profunda renovação de métodos na vida administrativa, na estrutura social e na arte, pressupostos do projectado jornal “Renovação” e de acordo com as propostas da geração da “Claridade”, publicação dos anos 30, que abre as portas ao realismo caboverdiano.
Terminado o liceu, Chiquinho volta a S. Nicolau com a incumbência de contribuir para o inquérito social proposto por Andrèzinho, o elemento dinamizador, o que levantava «teses sobre a situação humana» das ilhas, mas dispersa-se por outras iniciativas, como a de dar vida a uma associação operária, aspectos, porém, vistos como coisas dos “rapazes do liceu”. Daí a reflexão crítica que cabe inteiramente no programa do neo-realismo: «Infatigáveis na enxada (…) não pensam que cada um por si pouco vale, mas que todos juntos (…) até conseguiriam que chovesse a tempo e horas» (p. 108).
E aqui se insinua um elemento que percorre transversalmente o romance, para além da (des)organização do sistema colonial: a seca persistente e dura com suas pragas de gafanhotos e, por consequência, reduzindo as famílias à extrema pobreza, à fome («os meninos chorando porque a cachupa não chegou», p. 246) e à morte por desnutrição. Chiquinho chega a conseguir um lugar de “professor de posto” mas foi perdendo os alunos, um a um, porque «a seca estendera as suas garras insaciáveis» (p. 269). Tudo se conjuga para a grande decisão: o grogue como uma cocaína, se ficasse na ilha, ou a emigração para a América, seguindo as pisadas do avô e do pai, como solução individual e fuga aos projectos idealizados, por agora irrealizáveis.
Esta perspectiva, considerada pela crítica como “evasionista”, dada a solução proposta, só em parte corresponde àquela etiqueta, até porque Andrèzinho, o investigador da caboverdianidade, responde secamente à decisão de partir: «Vai tu, se queres. Eu fico. Tenho cá muito que fazer» (p. 290), o que viria a corresponder à futura posição de Manuel Lopes, em Chuva Braba, de 1956, e Flagelados do Vento Leste, de 1960. De qualquer modo, é ponto consensual que Chiquinho iniciou uma ruptura linguística na narrativa caboverdiana, produto de uma pesquisa e de processos de escrita que só mais tarde encontraríamos em Luandino Vieira e, de modo mais radical e programático, na ficção do grande Guimarães Rosa.