FRATERNIZAR – 1.º Pronunciamento político 2015 dos bispos venezuelanos – por Mário de Oliveira
carlosloures
“A grave crise é fruto do sistema económico comunista”!
* A Verdade só se mostra às suas inúmeras vítimas
Alertado por um amigo, acabei por ler o 1.º pronunciamento público da hierarquia católica venezuelana, em 2015. Deparei com um texto grosseiramente tecido de ideologia-teologia capitalista, por isso, vazio dos afectos sororais e da lucidez/sabedoria de Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria. Neste documento, os bispos católicos venezuelanos revelam que estão ainda no século XIX. Continuam a pensar, como então, que o marxismo-comunismo come criancinhas. Nem sequer vêem que, nestes primeiros anos do século XXI, quem tem sido, uma e outra vez, acusado/ condenado de pedofilia (= “comer”/explorar sexualmente crianças-adolescentes), é precisamente o clero católico romano, canonicamente, proibido de constituir família. São poder sagrado (= hierarquia), deuses muito acima do comum dos mortais, e está tudo dito. Apresentam-se sempre, neste extenso documento, com Deus na boca e nas suas rotineiras liturgias, mas, depois, vai-se a ver, e o Deus a que se referem com tanta sem-cerimónia, quase tu-cá, tu-lá, é precisamente o deus Dinheiro, o ídolo mais mentiroso, ladrão, assassino dos povos da terra. Quando, hoje, como humanidade, estamos mergulhados em plena Terceira Guerra Mundial, sobretudo Financeira, eis que os bispos venezuelanos vêm dizer que “o sistema económico-financeiro comunista” é que está a desgraçar o seu país. Como se a Venezuela não fosse parte integrante da Humanidade, estruturalmente, roubada, assassinada pela Guerra Financeira mundial em curso.
Entre os seres humanos e os grandes capitalistas, os bispos católicos romanos escolhem sempre – as excepções só confirmam a regra – os grandes capitalistas. Não é só na Venezuela. Igualmente, em toda a parte onde haja igreja católica romana. Ou ela não tenha por pai o império romano e a Cúria de Roma que o prossegue ainda hoje. O papa Francisco serve apenas de máscara, para ajudar a esconder a realidade. Pena que não haja ninguém, a quem ele escute, que o alerte, uma vez que ele, como papa, não pode ver, nem que queira. A Verdade nunca se mostra ao Poder, muito menos ao monárquico absoluto. Só às suas inúmeras vítimas. Estas abundam no mundo, com destaque para o mundo ocidental, de raízes cristãs, mas nunca chegam a comer à mesa do papa. O mais aonde chegam, e só na condição de multidões anónimas, é quando, aliciadas/empurradas pelos seus próprios algozes e os grandes media, saem dos seus tugúrios e vão aplaudir o papa, sempre que ele vai de visita a um outro Estado, fora do Vaticano. Mas multidões sem nome, sem voz, sem vez, naquelas missas a vomitar ostentação litúrgica, por todos os lados, herdada do império romano, e completamente cercado por clérigos eunucos à força, freiras, frades, meninas-meninos de coro, agentes do poder político. O que dá visibilidade à corte papal que nenhum outro chefe de Estado se pode orgulhar de ter. Fora disso, as vítimas são mera estatística que os economistas e certos teólogos cristãos mais eruditos gostam de referir nos seus livros, nos seus textos de opinião nos media de referência, nos países onde vivem.
Enquanto existir, a hierarquia da igreja católica romana é sempre assim. Salvo, como já disse, raras excepções, de resto, depressa punidas pela própria Cúria de Roma e pelos partidos políticos de inspiração cristã-católica. O caso mais eloquente destas raras excepções e punições é o bispo-mártir Óscar Romero, de El Salvador, depressa assassinado por católicos da extrema-direita, todos adoradores do Grande Capital. Não basta, pois, aos bispos católicos, venezuelanos e de outros países, referirem Deus, nos seus documentos, nas suas tomadas de posição política. É preciso saber de que Deus falam. Porque, ao contrário do que pensa/defende a hierarquia católica romana, Deus, o de Jesus, é de todo incompatível com o Dinheiro, o seu inimigo n.º 1. E quem diz, Dinheiro, diz Poder financeiro, diz Sistema capitalista, diz Cúria romana, diz hierarquia. Ora, o Poder financeiro é o real problema das sociedades e das nações. Nunca parte da solução dos problemas. É o problema. Entre o Poder financeiro e os-povos-das-nações, a contradição é total. Quem disser o contrário, mente. E tem interesses corporativos a defender, próprios das minorias privilegiadas, contra os interesses das maiorias empobrecidas.
Os bispos católicos romanos, onde estiverem, integram as minorias dos privilégios. O Deus que têm constantemente na boca e ao qual “elevam” as suas orações – os termos são do documento dos bispos católicos da Venezuela – é um Deus fora da História. Um ídolo, que se apraz de vítimas humanas. Nem sequer Jesus Nazaré conseguiu escapar às suas garras. Foi morto/sacrificado pelos sumos-sacerdotes do judaísmo, os pais dos sacerdotes cristãos católicos romanos. Para cúmulo, agiram na firme convicção de que, com essa morte crucificada, davam glória a Deus. E davam, porque o Deus da Bíblia judeo-cristã é exactamente o Cristo/Poder absoluto e invencível. Como, de resto, todos os domingos, as liturgias das igrejas cristãs fazem questão de proclamar no Credo de Niceia-Constantinopla. É sempre em nome deste Deus-ídolo, todo-poderoso, que falam os bispos de todas as igrejas cristãs do mundo. Por maioria de razão, os bispos da Venezuela, nesta sua primeira intervenção de poder político-episcopal 2015.
a sua cegueira ideológica/teológica, os bispos filtram “mosquitos” e “engolem” camelos. Não enxergam que são precisamente as minorias dos privilégios, quando, excepcionalmente, não constituem o governo das respectivas nações, que passam os dias a sabotar todas as decisões/medidas legislativas económicas e políticas do governo, ainda que este tenha sido sufragado nas urnas de voto. E logo correm a denunciar/culpar quem governa, em lugar de correrem a denunciar/culpar os sabotadores, precisamente, os mesmos que fabricam as maiorias empobrecidas. Se há corrupção, é entre os grandes interesses instalados, os grandes financeiros e suas máfias. As multidões empobrecidas, quais formigas, estão condenadas pelo Deus dos bispos e dos grandes capitalistas a ter de sobreviver no meio de toda esta luta fratricida. Sobretudo, se, em lugar da esmola, da caridadezinha, exigem, e bem, justiça social e o direito de acesso a todos os bens do país e do planeta. Sempre que as maiorias empobrecidas enveredam por esta via política, a única que lhes garante dignidade, logo têm à perna os bispos, a acusá-las de “comunistas”, enquanto morrem de amores pelas minorias dos privilégios que as fabricam. Hipócritas, que são! O mais sádico, é que, depois de tudo, estes mesmos bispos ainda se prestam a fazer chegar esmolas aos empobrecidos que frequentam as suas catequeses e as suas cínicas liturgias, em lugar se juntarem a eles, a reclamar a prática da justiça social
Importa, pois, que também as populações venezuelanas desconfiem, por princípio, dos bispos católicos do país. Regra geral, são a face visível da igreja dos ricos, instituída para cuidar de alguns dos inúmeros pobres que os ricos impunemente produzem. Um cuidar, na linha da caridadezinha, da esmola, da entrega de mercearia e de medicamentos. Uma prática indigna, para quem parece beneficiar dela, e para quem a promove/concretiza. Cabe às populações crescer de dentro para fora, a fim de poderem assumir, quanto antes, as suas vidas nas próprias mãos, sem mais necessidade de intermediários. Com intermediários, as populações serão sempre infantilizadas, carne para canhão, exploração, escravidão. Alerta, pois. Ouvidos surdos, para o que dizem os bispos. Ouvidos bem abertos, para as vítimas deles e dos grandes capitalistas, segundo o princípio político, Vítimas com vítimas, rumo a uma sociedade sem pobreza e sem pobres. Concretamente, uma sociedade vasos comunicantes, de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades. Um dia após outro, sem desfalecimentos. Como quem vê o Invisível. O meu abraço, desde Portugal, a todas as venezuelanas, todos os venezuelanos.