Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A chacina sobre Charlie Hebdo no contexto da crise europeia.
7. Atentados de Paris : judeus ?Mas que judeus
Matar judeus em Paris em 2015, isto não interessa aos media
Patrick Jarreau, Attentats de Paris : Des juifs? Quels juifs? Tuer des juifs dans Paris en 2015, ça ne fait pas un titre dans les médias
Revista Causeur.fr. 10 de Janeiro de 2015
Causeur pensou nisso antes de mim. “Sou casher”, é o que nos mostra o sítio, nos mesmos caracteres que aqueles que se vêem por toda a parte: “Charlie”.
Porque ontem sexta-feira, em Paris, um homem entrou numa loja casher e fez fogo sobre pessoas que aí se encontravam. Porque razão, pergunta-se ? O que é destinava estas pessoas para a vingança?
Nada mais, evidentemente, a não ser o facto de que eram judaicas, como a sua presença nesta loja podia levar a que assim se presumisse.
Se consultarmos os meios de comunicação social, este sábado de manhã, não saberão nada. Fala-se apenas “do Charlie”, ou mais recentemente de Ahmed Merabet, o polícia que morreu na quarta-feira sobre um passeio pelos que tinham acabado de assassinar os colaboradores do semanário.
Mataram-se judeus ao acaso numa rua de Paris sexta-feira 9 de Janeiro de 2015? Silêncio quase geral. “O live” do Le Monde fala “de reféns” que foram mortos. Que reféns? “Reféns” para fazer o quê, para negociar ou para obter o quê?
Não houve nenhuma tomada de reféns por Amedy Coulibaly, mas uma chacina de judeus, imediatamente, a partir da sua entrada na loja. Le Monde não vos diz que se tratava de judeus.
Matar judeus em Paris em 2015, isto não dá uma grande título nos meios de comunicação social. É tão banal como matar crianças judaicas numa escola em Toulouse em 2012, ou pessoas num museu judaico em Bruxelas no ano passado , ou gritar “morte aos judeus” nas ruas de Paris, ou atacar uma família judaica num edifício em Créteil.
Talvez se vá encontrar um jornalista para dizer que se Coulibaly atacou uma loja casher, é exactamente porque os judeus são ricos, como cada um o sabe bem, e que ele queria limpar a caixa.
Haveria ainda que falar sobre o chorrilho de lágrimas que se sofre desde há três dias “em homenagem” aos colaboradores de Charlie Hebdo, apresentados como encarnando a alma da França. Ora pode-se ficar revoltado pelo assassinato destes homens e mulheres, pode-se estar determinado a combater aqueles que o mataram, sem se estar a reconhecer, por isso mesmo, nas ideias e no estilo deste jornal, nem mesmo na sua decisão de publicar “caricaturas” que designam os muçulmanos como adeptos de uma fé intrinsecamente mortífera.
Em vez de se andar a gritar e martelar nos ouvidos de toda a gente com a frase “sou Charlie”, baseado no modelo das campanhas “contra a SIDA” ou “para o Téléthon”, não seria antes bem melhor tomar consciência da situação em que nos encontramos e dos perigos que nos ameaçam? Não é tempo de nos mobilizarmos contra o inimigo que anda a provocar as nossas sociedades desde os anos 1990? Não terá antes chegado o momento de escolher o seu campo em vez de nos refugiarmos numa espécie “não nós! não nós!” Patético?
A história mostrou a tendência de um grande número de Franceses a esconder-se esperando que tudo isto passe. Até aqui tiveram sorte, correu-lhes bem. A maior parte passou assim entre as dificuldades ao preço, para alguns, de estadas imprevistas mas não mortais nas fábricas e nas explorações agrícolas alemãs e, para a maior parte, de substituições alimentares deploráveis (mas a rutabaga está hoje na moda).
“Sou Charlie” traduz hoje uma atitude de recuo, de quase vitimização, com a qual acredita-se dar-se ares de boa consciência evitando as questões que nos incomodam. Não é isso que meterá medo aos djihadistes.
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Ver o original em:
http://www.causeur.fr/attentats-de-paris-juifs-djihad-31011.html
