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FRATERNIZAR – PAPA IGNORA QUE JESUS NÃO É, NUNCA FOI CRISTÃO! – por Mário Oliveira

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Homilia na Casa de Santa Marta

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 Nas suas improvisadas homilias na capela da Casa de Santa Marta, Estado do Vaticano, o papa esforça-se por ser humano, familiar, coloquial. Mas só ele usa o verbo e a boca. Aos presentes/participantes, escolhidos a dedo, resta-lhes ouvir e calar. Comentar, nem pensar. Opinar, muito menos. Lá se vai então o humano, o familiar, o coloquial por água abaixo. O que verdadeiramente se afirma é o poder monárquico absoluto do papa Francisco. E de modo ainda mais marcante, precisamente, devido ao tom artificialmente humano, familiar, coloquial. Numa das homilias de finais de Janeiro último, o papa parece dar toda a importância às mulheres. Azar seu: Começou logo por citar S. Paulo, o da Carta a Timóteo. Não é S. Paulo o autor da carta. Mas o cristianismo não está com cerimónias e identifica escritos de possíveis discípulos dele, como se fossem dele. Vale tudo no cristianismo. Só que hoje, somos uma sociedade já pós-cristã. E este modo de falar-agir só revela que o cristianismo é coisa cada vez mais residual. O que nem sequer é residual, mas totalmente desconhecido, é Jesus, o filho de Maria. E o seu Evangelho-Projecto político de Deus, o de todos os povos, que o dos judeus, dos cristãos, das religiões, dos banqueiros.

Quem conhece as cartas autênticas de S. Paulo, sabe quanto ele reduz as mulheres a meras barrigas de aluguer, propriedade dos maridos, cidadãs de menoridade. Como de resto faz o próprio cristianismo que o tem a ele, como o seu principal doutrinador. Pois bem. Apoiado nessa carta a Timóteo, o papa sublinha, a dado passo, “São as mães, as avós que transmitem a fé”. Acrescenta, depois, “Uma coisa é transmitir a fé, outra é ensinar as coisas da fé. A fé é um dom, não se pode estudar. Estudam-se as coisas da fé, para entendê-la melhor, mas nunca se chegará à fé com o estudo.” Uma enorme contradição perpassa em todo este curto texto. Por um lado, o papa afirma, “São as mães, as avós que transmitem a fé”. Logo a seguir, nega essa afirmação, ao fazer outra, contrária a essa, “A fé é um dom, não se pode estudar.” Quem diz estudar, também diz transmitir. Transmitem-se tradições, doutrinas. Um dom, não. O dom acontece no ser-viver de alguém, independentemente das mães, das avós, dos papas, dos clérigos! A Fé de Jesus, por exemplo, aconteceu no decurso do seu viver histórico, totalmente, fora da sua própria família, do judaísmo, da sua Bíblia! Aliás, acabam todos contra ele, porque a Fé dele não é coincidente com a dos seus antepassados!

Subjacente a este improvisado discurso papal, está o conceito que o papa Francisco tem de “fé”. Dentro do cristianismo, trata-se de fé cristã religiosa que é concedida a alguns eleitos (hierarquia), recusada a quase todos os mais. O mais reveladoramente chocante é que, depois de dois mil anos de cristianismo, é cada vez menor o número de pessoas portadoras de fé cristã religiosa. O facto é indesmentível. Para cúmulo, trata-se de uma fé quase sempre imposta pelas armas, como aconteceu nos ferozes tempos das “descobertas e conquistas”, das Cruzadas, das Inquisições, das guerras santas. Crês, ou morres. Os métodos hoje são distintos, o que não significa que sejam melhores. Não são. Como dom, ou como transmissão, a fé cristã religiosa é habitualmente imposta. Muito raramente resulta de uma opção/decisão livre de um ser humano, muito menos, de um povo inteiro. De resto, basta conhecermos como a própria Europa se tornou cristã, quase da noite para o dia, sem qualquer anúncio/prática do Evangelho de Jesus. Bastou um decreto imperial de Constantino. E, mais tarde, a “conversão” de um chefe militar, ou de um rei, para, automaticamente, todos os seus súbditos se tornarem cristãos com ele. Nasceu até aquele vergonhoso provérbio latino, “Cuius regio, eius religio” (= a religião do rei é a religião dos seus súbditos). Por outro lado, as grandes empresas missionárias, católicas e protestantes, existem com o objectivo de “impor” o “dom” da fé cristã religiosa aos povos mais empobrecidos, excluídos, abandonados, dos quais se chegou a duvidar, no passado, se teriam alma!!! É sabido que, com esse mister, todas elas acumulam fortunas e imóveis, até dizer Basta!

Lá, onde chegam, instalam, entre as populações mais empobrecidas, ainda não escolarizadas, desprovidas de quaisquer cuidados de saúde e de primeiros socorros, os seus próprios serviços missionários: o posto de primeiros socorros, a escola, o hospital rudimentar, a igreja. Todos ostentam os símbolos cristãos, com destaque para a cruz, o maior instrumento de tortura que os missionários, depressa, haverão de transformar em instrumento de redenção das “almas”, a somar ao sofrimento das populações. O “dom da fé” é assim dado/imposto. Quem quer os benefícios, sente-se compelido a frequentar a igreja/catequese da “Missão”, a sua fé cristã religiosa, o seu Deus, os seus cultos, quase sempre, sem qualquer adaptação cultural, pura e simplesmente, transplantados da Europa para lá. Esta fé cristã religiosa católica inclui – é imprescindível – o reconhecimento, por parte das populações aderentes, do poder do papa de Roma, o monarca absoluto de Deus uno e trino, o do Credo de Niceia-Constantinopla, sem o qual não há fé cristã religiosa que lhes valha. Duas ou três gerações depois, já as crianças nascem cristãs. O que significa que a fé cristã religiosa passa a transmitir-se de pais para filhos, sobretudo, de mães, avós, para filhos, netos. Qual fé? Obviamente, a dos missionários, donos das escolas, dos postos de enfermagem, dos santuários, dos médicos, enfermeiros, professores que, para isso, servem as freiras missionárias, os irmãos leigos formados em medicina, em informática, os muitos “voluntários” jovens que, por ocasião das férias escolares, vão protagonizar uma experiência em terras de Missão, tudo pago, ou “oferecido” pelas respectivas famílias às “Missões”.

Deste modo, o negócio da fé prospera a olhos vistos. Não na Europa/Ocidente, mas nos países da fome e da opressão. Não há empresas missionárias mergulhadas em crise económico-financeira. Só em crise de “vocações”. Os jovens ocidentais olham para este negócio sujo e não alinham. Em nome da decência. Da dignidade. Do respeito pelo outro. Nem os cargos de poder e de privilégio, oferecidos de bandeja, os atraem. São mais dignos do que a Cúria romana, os institutos missionários, do que o próprio papa que abençoa e canoniza todo este indigno modo de proceder. O cristianismo é mesmo assim. O grande inimigo dos povos, da sua emancipação, especificidade, originalidade, tradições culturais. A fé cristã é um dom imposto. Porque é ideológica-teológica. Direcciona-se para um Deus todo-poderoso que se revela no papa, poder monárquico absoluto. Não se revela nas vítimas, nas populações, nos povos empobrecidos e oprimidos pelos missionários e seus compinchas de Mercado, as grandes transnacionais.

Contra esta fé cristã religiosa, acontece, sem que nunca se saiba como, a fé teológica jesuânica, fecundamente, humano-política, a mesma que aconteceu em Jesus. Com muito de clandestino, como tudo o que é essencial, substantivo. O papa está impedido de a conhecer/praticar. Os missionários também. Não se transmite de mães, pais, avós, avôs, para filhos, netos. Acontece, como um ladrão, no ser-viver das pessoas, lá, onde quer que elas vivam. Sem missionários, pastores, sacerdotes. Precisamente, quando os povos se descobrem/experimentam irmãos, dão-se as mãos, na maior das gratuidades, e reciprocamente se convidam para a partilhar a mesma Mesa, as dificuldades, as possibilidades. É como o grão de mostarda que cresce de dentro para fora, dia e noite, sem que os próprios saibam como. Uma coisa, eles sabem: quanto mais desenvolvem este seu novo modo de ser-viver, vasos comunicantes, mais humanos, irmãos, se experimentam uns dos outros. Sem necessidade de templos, altares, sacerdotes, religiões. E – mistério dos mistérios – nunca mais estão sós. Mesmo que, como Jesus, sejam tidos/tratados como herejes, como malditos. São povos habitados, potenciados de dentro para fora. Tudo o que fazem/tocam, torna mais humano o nosso mundo. É esta a via-fé de Jesus, o filho de Maria, que o Cristo do cristianismo, o filho de David, odeia, persegue, crucifica! Para que se cumpra a Escritura, ou a Bíblia, o manual de instruções do poder monárquico absoluto e do seu Deus mentiroso, assassino. O ídolo dos ídolos.

 

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