FRATERNIZAR – “Filhas, filhos, ou cães e gatos?!”- por Mário de Oliveira

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Questão levantada pelo papa Francisco

 

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A questão, Filhas, filhos, ou cães e gatos?, foi levantada pelo papa Francisco, numa homilia, sem nenhum direito ao contraditório, de uma daquelas suas missas diárias na capela privada da Casa de Santa Marta, em Roma. Que o papa, como se sabe, não é capaz de passar um dia sem missa, por ele presidida, na presença de pessoas embevecidas, quase em transe, por esse privilégio que lhes é dado. Se pensam que se pode ser, ao mesmo tempo, humano e papa de Roma, estão rotundamente enganadas, enganados. Ou que se pode ser humano e manter-se humano, na capela privada da casa de Santa Marta, no decurso de uma missa presidida pelo papa de Roma, também estão rotundamente enganadas, enganados. Não se pode. Só o humano faz humanos os que dele se fazem próximos, ou dos quais ele se faz próximo. O Poder, pior se sagrado e santo, como o do papa de Roma, faz lacaios, súbditos, para cúmulo, tão fervorosos e fanáticos, que entram em transe e quase levitam, numa espécie de êxtase com tudo de alucinação, como todos os êxtases dos místicos e dos espiritualistas de olhos fechados de todas as religiões, carregados de desprezo, ou mesmo de ódio, pelo mundo, que eles têm como um dos três “inimigos da alma”, juntamente com o “demónio” e a “carne” (= sexo e prazer sexual). Uns anormais que se reclamam de “modelos” de santidade. Fariseus, q. b. é o que são. Por isso, estéreis, quanto os fariseus do tempo e país de Jesus, que não faziam nada de humano, nem deixavam ninguém fazer. Só encenação, para serem vistos por toda a gente e louvados na praça pública.

Só num ambiente como o duma missa papal na capela da Casa de Santa Marta, aquela questão pôde ser levantada, concretamente, nos termos em que o papa a formulou: “Estes casamentos que não desejam filhos, que querem ficar sem fecundidade; esta cultura do bem-estar, de há dez anos a esta parte, convenceu-nos: ‘É melhor não ter filhos! É melhor! Assim tu podes conhecer o mundo, em férias, podes ter uma casa de campo, ficar tranquilo’… Mas é melhor talvez – mais cómodo – ter um cãozinho, dois gatos, e o amor dirige-se aos dois gatos e ao cãozinho. É verdade ou não?”

A pergunta do papa é pura retórica, porque ninguém lhe respondeu, nem podia, que nas missas, para mais do papa de Roma, a palavra é exclusiva do clérigo que a ela preside. E o papa de Roma é o clérigo dos clérigos, cujas palavras, mesmo que sem qualquer conteúdo, são registadas para a posteridade, porque são palavras do papa de Roma. Por sinal, a questão levantada pelo papa é séria, mas não assim a ênfase moralista e religiosa com que ele o faz, que é um desastre em toda a linha. Porque o papa, como qualquer outro clérigo, dificilmente consegue sair do universo do moralismo e do religioso, tão do agrado do poder, sobretudo, se sagrado e monárquico absoluto, como é o seu caso. E só sai dele, se desiste de clérigo e passa a humano, pois então nunca mais quer saber do universo do moralismo e do religioso para nada. Porque esse, é um universo onde os seres humanos deixam de o ser e passam a ser coisas, porventura, sagradas, mas coisas, não pessoas, não sujeitos, não protagonistas, uma realidade de todo impensável, no universo do moralismo e do religioso.

 A questão levantada é pertinente e séria, mas só pode de ser correctamente abordada fora do universo do moralismo e do religioso, que é o universo do papa de Roma e dos clérigos em geral. Neste universo, o próprio que levantou a questão, à hora de buscar respostas correctas e salutares para ela, lava daí as suas mãos e, quando muito, reza mais umas quantas missas ou outras orações, para que Deus, o do moralismo e do religioso, a resolva, já que para alguma coisa é reiteradamente invocado como Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente, tal como reza o Credo do cristianismo e das igrejas cristãs todas, a católica romana e as protestantes. Um Deus com tudo de ídolo, totalmente fora da história, um mito, ele próprio, uma coisa que as populações são levadas a invocar a toda a hora e instante, sem jamais reconhecerem que, com isso, deixam o mundo real cada vez pior, cada vez mais dividido e tecido de ódios e de fanatismos, entre os quais os fanatismos religiosos levam a palma.

 A questão é séria e pertinente. Por isso, só pode e deve ser encarada no universo da Política praticada, de resto, o único universo que nos faz humanos, de dentro para fora. Porém, este não é o universo do papa de Roma, nem dos clérigos todos do mundo. Tudo, no universo do moralismo e do religioso, é encenação, nenhuma realidade. Quando aí se fala dos problemas e depois se recorre a Deus para que os resolva, em vez de arregaçarmos as mangas da nossa mente cordial e metermos as mãos na massa, somos uns parasitas e uns eunucos que nos pavoneamos nas praças e por entre aplausos de multidões histéricas, dos quais diz Jesus que melhor fora que não tivéssemos nascido.

 Não se trata de optar entre filhas, filhos, e cães e gatos. Porque filhas, filhos casam bem com cães e gatos, como, de resto, é regra da natureza. Nesta questão, como em todas as outras questões sérias, tem de se procurar a causa estrutural, sistémica que leva hoje muitos casais a optar por não ter filhas, filhos. E atacar o mal aí. É então todo este tipo de mundo do poder que fica em questão, juntamente com a sua ideologia e até a sua teologia. Por sinal, o tipo de mundo do papa de Roma, ele próprio impedido, como clérigo, de gerar filhas, filhos e, até, impedido de gostar de gatos e de cães. Neste tipo de mundo do poder, os seres humanos são reduzidos a coisas e só os agentes do poder têm voz e vez. Quase sempre, para dizerem e fazerem asneira, como nesta homilia do papa Francisco, numa das missas na capela privada da Casa de Santa Marta. Melhor fora, que o papa estivesse calado, porque, ao falar como falou, só piorou ainda mais as coisas, embora toda a gente ache que ele foi muito oportuno e certeiro. Não foi. Tudo não passou de mais um número de circo religioso, em que as igrejas cristãs e as religiões são peritas. Falam dos assuntos, mas, depois, não lhes mexem nem com um dedo. Apenas rezam, rezam e mandam rezar! Hipócritas, chama-lhes Jesus Nazaré e muito bem.

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