A IDEIA – II – VISÕES DA NÉVOA: SURREALISMO & BRASIL -por FLORIANO MARTINS
carlosloures
(Continuação)
De qualquer forma, é preciso ter em conta a observação de Belén Castro Morales, no sentido de que, se “o Surrealismo contribuiu para o encontro do artista americano com os estratos profundos dele próprio, este viu muitas vezes que não necessitava filiar-se a um movimento forâneo quando podia desenvolver com amplitude e complexidade uma leitura pessoal de seu entorno”.[8] É bastante razoável o que nos diz a ensaísta espanhola, sobretudo se pensarmos em casos como os do chileno Humberto Díaz-Casanueva (1907-1992), do venezuelano Vicente Gerbasi (1913-1992) ou do colombiano Jorge Gaitán Duran (1924-1962), que souberam reconhecer acentuada influência do Surrealismo em sua poética sem, no entanto, vincularem-se formalmente ao mesmo. Naturalmente esta é uma posição destoante de uma recusa preconceituosa ao Surrealismo ou, o que é ainda pior, o comportamento discricionário amparado em chamar para si uma ventura que não lhe é de todo própria.
Caso distinto de Mário de Andrade foi o de Oswald. Este propiciou inúmeras polêmicas, quase que por compulsão. A busca das “fontes puras do primitivismo”, ele entendia como possibilidade única de despir a arte de “convencionalismos e sofisticações”. Tento entender a ideia de convencional, mas penso a que tipo de sofisticação nos teria levado o Futurismo tão cultuado por ele. Claro que agia provocativamente ao dizer dos poetas que o sucederam: “são todos superiores a mim”. E a própria escritura paródica que perseguia na poesia implicava ao menos em uma busca de sofisticação estilística. Curioso é observar que, nos anos 1950, despertavam a atenção de Oswald novos poetas como Thiago de Mello e Geir Campos – o mesmo Oswald que considerava Lêdo Ivo “um caso típico do soldado do Exército do Pará”. Evidente que a natureza ciclotímica do autor do Manifesto da Poesia Pau-Brasil obscurecia qualquer confiança que se pudesse ter em suas declarações. Mesmo assim, recordo aqui duas entrevistas em que comenta acerca de Futurismo e Primitivismo. Na primeira, destaca: “Em 1918, eu fui à França e trouxe de lá o Manifesto de Marinetti. Em 1922, Mário de Andrade tinha em casa todos os futuristas italianos.” Adiante dispara: Quando Mário de Andrade publicou a Pauliceia Desvairada, aquilo me pareceu, apesar do nosso estado de espírito, uma novidade. Novidade absoluta. É que Mário escondia de nós, avaramente, os futuristas italianos que ele possuía… Depois, quando conhecemos também os futuristas italianos, a impressão de novidade permaneceu, por que Mário nunca foi homem de macaquear. Os futuristas italianos deram-lhe o modelo formal, do qual ele se aproveitou para fazer a sua própria experiência estética. Além de tudo, eu que nunca soube fazer versos medidos vi ali a minha oportunidade de fazer poesia. Era a poesia libertada. De Pauliceia Desvairada nasceu o meu Pau-Brasil. Mas nasceu por oposição.[9]
Na segunda entrevista, já mais sobriamente recorda: Trouxe para cá essa vontade de renovação que grassava intensamente na Europa e procurei atrair os intelectuais não empedernidos nas velhas correntes estéticas para um movimento sério que nos conduzisse para novos rumos. E devo dizer mais: que, embora intimamente ligados ao pensamento francês dominante, instalamos aqui uma revolução estética que se pode chamar de colateral do movimento francês, porquanto teve seus rumos originais. Quando cheguei da Europa, me perguntavam se eu seria futurista, surrealista, dadaísta ou que outra denominação me calhasse aos anseios renovadores. Não fui nada disso, procurei uma geografia para os meus rumos estéticos, que foi precisamente o Primitivismo.[10]
Talvez caiba dizer que a grande obra do Futurismo são os manifestos. Marcel Duchamp foi quem mencionou que o Futurismo era “um impressionismo do mundo mecânico”,[11] ou seja, aquela coisa da retina funcionar como “uma inesgotável fonte de prazer” que, no dizer de Max Ernst, caracterizava o Impressionismo, vale para o Futurismo, desde que pensemos que os futuristas tinham olhos apenas para um mundo mecânico (“Escutar os motores e reproduzir seus discursos”). Agora, também Mário de Andrade foi um notável autor de manifestos. Indagaríamos então: tanto em um caso como no outro, quanto se adotou pra valer, em matéria de fazer coincidir com a ação o discurso dos manifestos? Não esquecer ainda um lúcido entendimento de Antônio de Alcântara Machado, em passagem de uma entrevista: O Futurismo de Marinetti está fazendo na nossa literatura o papel do positivismo na engraçada filosofia republicana ou que outro nome tenha que nos felicita. Só existe nesta terra onde os pássaros gorjeiam diferente. Só aqui é levado a sério. Só aqui ainda arranja discípulos. Só aqui.[12]
E logo em seguida dispara, sintetizando um dilema que ele destaca naquele momento, mas que se repete ao longo de nossa história: “De um lado, pois, exuberância livresca; de outro, ignorância frondosa. Dois males do modernismo brasileiro.”
(Continua)
NOTAS
[8] “El Surrealismo en América Latina: la revelación de la alteridad”. Revista La Página # 11 y 12. Tenerife, 1993.
[9] “Oswald de Andrade explica por que a Semana de Arte Moderna aconteceu em São Paulo”. Entrevista concedida a Heráclio Dias. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 24/01/1954.
[10] Esta é considerada a última entrevista dada por Oswald de Andrade, publicada no Diário de São Paulo, 21/11/1954. Texto incluído em Os dentes do dragão (Org. Maria Eugenia Boaventura), o volume de suas Obras Completas que reúne todas as entrevistas. São Paulo: Editora Globo, 1990. Não há referência ao nome do autor da entrevista.
[11] Citado por Ángel Pariente em Diccionario temático del surrealismo. Madrid: Alianza Editorial, 1996.
[12] “Entrevista a Antônio de Alcântara Machado”, concedida a Peregrino Júnior. O Jornal. Rio de Janeiro, 03/07/1927.