Temos vindo a transcrever o catálogo da Exposição Surrealista, em Lisboa, Janeiro de 1949. Hoje, João Moniz Pereira, José Augusto França e Vespeira explicam porque são surrealistas.
JOÃO MONIZ PEREIRA
Entrei para o Surrealismo levado pela movimentação dialéctica das coisas.
JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA
PORQUÊ?
1º – Por coerência moral:
# 1 – É absolutamente necessário que o completo processo dialécico da vida psicológica, possibilitado pelo Surrealismo, se reflita numa moral actual.
# 2 – Descobri as mentiras convenientes e estúpidas de todos os larousses sobre a obra do Marquês de Sade.
# 3 – O Surrealismo representa uma efectiva possibilidade de acção poética, quer dizer, libertadora, quer dizer constructiva.
# 4 – O Surrealismo deixa-me uma porta aberta para todas as actividades-individuais-sociais em que me deseje, me encontre ou venham a desejar-me, a encontrar-me – para dentro e para fora de uma porta que para todos os lados tem saída e entrada.
# 5 – Agrada-me a companhia do Grupo Surrealista de Lisboa.
2º – Por coerência mental:
# 1 – O Surrealismo integra-se necessariamente na consciência científica-racional formada de Heraclito a Engels e passando, evidentemente, pro Descartes.
# 2 – O Surrealsimo não tem nada que ver com qualquer forma de idealismo ou de mitologia ou de magoa ou de mística – que mais não são (ou seriam) do que degenerescências, venham donde vierem.
# 3 – O Surrealismo não pode confundir acção poética com conhecimento poético.
PORQUE “ME OBRIGO A COMPORTAR COMIGO PRÓPRIO COMO COM UM SER UNIVERSAL”.
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VESPEIRA
Fernando de Azevedo e Vespeira
PORQUÊ ?
Porque vivo a liberdade poética – actividade interessada e dialética – fora de propósitos estético-literários ou moralístico-burocráticos.
Porque considero o Surrealismo a mais actuante posição do conhecimento humano em totalidade e não parcelado em consciente ou inconsciente.
Porque, assim, o Surrealismo é a posição objectivamente combativa para a necessária e humana transformação do mundo.
Porque não temo o absurdo da experiência e creio na validade de todas as experiências.
Porque encontro as imagens. Porque tenho o prazer de as encontrar. Porque as imagens me surpreendem, me revelam e me destroem.
Porque é mais importante o que acontece para que um quadro exista do que o próprio quadro.

