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A GALIZA COMO TAREFA – Ocupação do Presente – Ernesto V. Souza

Largo de Fuente Dorada, Valhadolid na Espanha, casas burguesas  oitocentistas e espaço de lojas antiquadas e ultramodernas. O chão é de pedra caliça e tijolo maciço, como as arcadas e as fachadas. No centro, o chafariz pseudo-clássico, que conta da história dos ofícios: aguadoras, ferreiros e conquistadores, enquanto deita água pelos suas quatro bicas.

Centro de cidade Castelhana, perto da Praça Maior, convergem nela duas travessias pedonais também feitas para comércio e passeio. A outra rua que a percorre transversal é artéria de trânsito e paragem de autocarros. Há uma oliveira não grande a simbolizar qualquer cousa indefinida, mas evidentemente nacional. E, no outro extremo, um alpendre de vidro e PVC para turismo e omnipresentemente decorado com cartazes da Semana Santa e das touradas estivais.

Algumas tardes, desde o 12 M famoso, há lá reunião de gentes, pequenos debates, leituras. Cada vez menos, diria eu, ainda que nos primeiros tempos a praça estivesse lotada da manhã à noite. Mas, agora, conformados plataformas e Partidos políticos de rotura, não sei bem que representa esta gente. Nunca liguei para este movimento, mas agora vejo, algumas vezes, ao passar, de tarde em tarde, cada vez menos uns quantos velhos ativos, umas quantas mocinhas, curiosos coloridos com vontade de falar e desempregados contando as suas tragédias.

Polícia há sempre a mesma. Ou ainda mais, cada vez mais. Ultimamente todas as cidades estão, nomeadamente Madrid, cheias de polícia, marcando presença assim que há qualquer reunião de gentes. Também os polícias têm telemóvel mas não cometem ilegalidade em se autoconvocar para reunir.

É curioso, mas hoje que as ruas estão cortadas por 12 procissões, a polícia está, com as autoridades civis, militares e religiosas, decorando nos palcos. A música de tambor, omnipresente há dias, como num filme de King Kong, ao longe, parece mais atafegar que o calor e a ausência de vento, o ambiente.

Nestes dias, lembro-me sempre da cena de José Martínez, o famoso editor de Ruedo Ibérico voltando para Espanha após décadas de exílio, bêbado, amargado subido no teito de um carro e apupando às procissões que a polícia não dissolve: “que se vayan a incordiar a un Teatro!!!” (que vão chatear a um teatro).

Lei da Memória histórica, nesta Espanha penitente, espetacular e teatreira, que absurdo, o que havia era que legislar sobre a ocupação permanente do presente.

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