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A IDEIA – O GRUPO DO CAFÉ GELO: DO PRINCÍPIO AO FIM- 1- por António Cândido Franco

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O nascimento do grupo do Café Gelo está registado em pelo menos dois depoimentos de Helder Macedo, talvez aquele que de forma regular e pertinente mais tem contribuído para historiar o grupo. O primeiro, o mais antigo, chamado “Ritos de Passagem”, publicado no catálogo KWY Paris 1958-68 (Centro Cultural de Belém/Assírio & Alvim, 2001: 69-72), saído das mãos de oiro de Manuel Rosa, estabelece com precisão o momento do nascimento do café como espaço de convívio dum grupo de jovens, a partir do momento em que quatro pintores – René Bertholo, João Vieira, Gonçalo Duarte, José Escada, a que se junta Lourdes Castro – arranjaram uma oficina, no Rossio, em Lisboa, ao virar da esquina, de esguelha para a estação do Rossio, no sotão do prédio do Beira-Gare (p. 70). Foram esses quatro jovens que, para a bica, escolheram, entre os muitos cafés e esplanadas que tinham à disposição na praça, o Gelo, talvez o mais neutro e próximo. João Vieira, segundo Macedo, foi o primeiro a adoptar o Gelo para bica e ponto de encontro. Aos quatro iniciais logo se juntaram os amigos mais próximos, aí se criando um grupo fixo, que se encontrava às tardes ou às noites. Helder Macedo não apresenta nesse texto uma data rigorosa para o evento, situando-o apenas cronologicamente nos anos de 1950, mais precisamente [a] segunda metade dessa década (p. 69) No segundo texto sobre o assunto, “Raposa branca num campo de neve” (Relâmpago, n.º 26, Abril de 2010, pp. 139-147), avança com um ano preciso, 1956, para o momento em que conheceu Mário Cesariny no café. Ora a chegada de Mário Cesariny ao grupo do Café Gelo, em 1956, quase ao virar da primeira para a segunda metade da década, foi temporão. Assim sendo, o início, ou pelo menos a primeira consolidação, do grupo pode ser fixado com algum rigor no ano de 1956.

Quem levou Cesariny ao café da quase esquina do Rossio? Não há indicação em Helder Macedo que aponte para uma resposta. Pela minha parte convenço-me que qualquer dos quatro podia conhecer Cesariny no momento do aluguer do sótão do prédio do Beira-Gare. Lourdes Castro, a mais velha, nascida em 1930, vinda do Funchal, entrara em 1950 na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde fechou a licenciatura em 1956. René Bertholo, nascido em 1935, frequentara as Belas Artes de Lisboa e casará com Lourdes Castro em 1957. Gonçalo Duarte, nascido também em 1935, frequenta o Pedro Nunes, a António Arroio e depois as Belas Artes, onde conhece Lourdes e Bertholo. José Escada, nascido em 1934, ingressou na mesma escola em 1950 e nela conheceu os amigos com quem viria a alugar o sótão. João Vieira, nascido no mesmo ano de Escada, teve idêntico percurso, chegando à Escola em 1951. Ora nesta altura ainda António Maria Lisboa, apenas dois anos mais velho do que Lourdes Castro, estava vivo e frequentava a oficina de Isabel Meyrelles na Travessa do Ferragial, onde foi tirada a fotografia dos telhados com Mário Henrique Leiria, Cesariny e Cruzeiro Seixas. Em todo o caso, a partir daquilo que conheço, é impossível dizer qual deles chamou para o meio do grupo Mário Cesariny, que logo se tornou, pelo ascendente da idade, pela obra editada desde 1950, pelas relações que tivera com António Maria Lisboa, pela presença em Paris em 1947 junto de André Breton, um centro magnético. Gonçalo Duarte, pela colaboração dada à Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito (1960), pelo entusiasmo com que aderiu ao surrealismo e citou Cesariny, é talvez uma hipótese forte, mas não segura, da chegada de Cesariny ao grupo.

Deve-se com certeza a Gonçalo Duarte a chegada ao grupo de dois dos seus amigos, Helder Macedo e Manuel de Castro, o primeiro antigo colega do liceu Pedro Nunes e o segundo visitante esporádico do mesmo liceu. O retrato que Macedo, no primeiro texto, faz de Manuel de Castro nesta época, os derradeiros semestres da década de 40, e neste liceu, Pedro Nunes, que classifica de improvável, é muito preciso e vale a pena ser transcrito: também apareceu a rondar por ali [Liceu Pedro Nunes] o Manuel de Castro, elegantíssimo e a ganhar sempre em todos os jogos enquanto proferia enigmas esotéricos. Andavam os três – Castro, Macedo, Duarte – por volta dos 15 anos. Aos três, junta-se ainda Fernando Gil, colega do mesmo liceu e que também terá passado pelo café Gelo. Manuel de Castro, nascido no mesmo ano de Escada e um ano mais velho do que os dois amigos do liceu, foi pois dos primeiros a chegar ao café. Chegou no ano de 1956 (ou no final de 1955) e foi um dos que lá permaneceu até ao fim, já no início da década de 60, quando o grupo que se reunia no café mudara e os iniciais, chegados do prédio do restaurante Beira-Gare, já haviam batido asa, deixando lá os amigos, a que se foram juntando os amigos dos amigos. Manuel de Castro atravessou pois, durante cerca de sete anos, de 1956 a 1962, todas as fases do grupo, tornando-se porventura pela obra em livro, editada em exclusivo nesse período, em 1958 e em 1960, a figura mais representativa do espírito do grupo.

A composição do conjunto que se reunia no café não tardou a mudar, pois Bertholo, Lourdes e Gonçalo Duarte partiram para Munique em 1957 e depois para Paris no ano seguinte, não mais regressando. Ainda em 1957, João Vieira partiu para Paris, onde ficou. Em 1959 Escada seguiu o mesmo caminho, juntando-se ao resto do grupo, que entretanto, com o alemão Jan Voss e o búlgaro Christo, desenvolvia em Paris a revista KWY, com tiragem de 12 números até 1963, e as edições com o mesmo nome, que se mantiveram até 1967. O grupo KWY, constituído em parte pelos que deram origem ao grupo do Gelo, está porém fora já deste conjunto, constituindo uma história à parte, a estudar em separado. Não quer isto dizer que os dois grupos, nascidos do mesmo fundo comum e com personagens que são por vezes as mesmas, não se tenham cruzado, como sucede na colaboração que Mário Cesariny, Manuel de Castro, Herberto Helder, Helder Macedo, José Manuel Simões ou Alfredo Margarido, todos eles ligados ao café Gelo, deram à revista editada em Paris. Não se pode dizer todavia que KWY seja uma publicação do grupo do café Gelo, mesmo que tenha sido feita pelos seus fundadores. Menos ainda se deverá dizer que se trata duma publicação surrealista, mesmo que alguns surrealistas, como Cesariny ou Manuel de Castro, por lá passem. Lourdes Castro e René Bertholo, os fundadores da KWY, no momento da saída do primeiro número, em Maio de 1958, já estão em Paris, longe do Gelo e do grupo que nele convivia, mais interessados em fazer uma revista internacional, que possa significar o ponto de partida dum novo grupo, o KWY, do que em reatar contactos com os amigos portugueses. Só mais tarde, com a chegada de Gonçalo Duarte ao segundo número e de José Escada ao terceiro, se começam a perspectivar as pontes com o grupo remanescente do Gelo, que terá o ponto cimeiro na separata do quinto número, Dezembro de 1959, em que Cesariny colabora porventura a convite de Manuel de Castro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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