.
Uma última nota para as relações do KWY com o surrealismo. Já se sabe que a revista do grupo de Paris foi sobretudo animada pelo núcleo que iniciou as reuniões no café Gelo. Foi por certo alguém deste primeiro núcleo que chamou ao café Mário Cesariny. Este, numa época em que António Maria Lisboa já partira para a grande ausência e o seu grupo, “Os Surrealistas”, dispersara pelo mundo, adoptou o café como centro de acção, aí activando os opúsculos de “A Antologia em 1958”, organizando para Pirâmide alguns dos seus materiais mais significativos e concebendo a colectânea do surreal-abjeccionismo que veria a luz em 1963. Faz pois sentido perceber as relações do KWY, sobretudo através da revista que com este nome publicou, com o surrealismo. Cesariny fecha o texto “Para uma cronologia do surrealismo em português” (1973), capital do ponto de vista da historiografia do movimento entre nós, integrando três membros do grupo KWY, Gonçalo Duarte, Lourdes Castro e René Bertholo, no surrealismo. Tanto basta para se perceber a importante ligação do grupo com o movimento.
Não me parece fácil olhar hoje, mais de 40 anos depois do texto de 1973, a obra de Lourdes Castro ou a de René Bertholo do ponto de vista do que mais caro é ao surrealismo, e que não é do domínio da estética ou da sociologia, onde estes artistas se parecem posicionar nas obras mais representativas que deixaram. Não creio que estes dois criadores se tomem hoje por surrealistas. O mesmo diria para Costa Pinheiro e, com mais dúvidas, para João Vieira. Já o caso de Gonçalo Duarte me parece outro. Tem ele uma dimensão maldita e simbólica, tão viva na sua “Batalha de Alcácer Quibir” (1973), e até no percurso da sua vida, que chegou ao termo em Paris no ano de 1986, que em algo, ou até em muito, me parece coincidente com aquilo que o surrealismo pediu da actividade pictórica. Está ele para o domínio das formas como Manuel de Castro está para o das ideias. São os dois gémeos da geração do café Gelo, um desaparecido aos 36 anos e outro aos 50, em idênticos naufrágios. A melhor e a mais sentida homenagem pictórica a Manuel de Castro é porém de João Vieira (“Manuel”, 1963), numa létrica escura, terrosa, labiríntica, onde o fio do oiro desponta num relâmpago. O caso de José Escada é também distinto, e porventura de forma ainda mais expressiva e radical, merecendo o melhor cuidado. José Escada foi o primeiro do grupo KWY a largar para a viagem sem retorno, aos quarenta e seis anos, em 1980. Escada, que muito frequentou nos últimos quatro anos de vida a oficina de Lagoa Henriques e de Carlos Amado, em Pedrouços, aí deixando algumas das derradeiras telas, legou uma obra que é uma pura alquimia da cor, desprovida de qualquer intenção exotérica, toda ela centrada nas metamorfoses do cadinho interior da alma. Nela se encontram, com uma pureza rara e uma fidelidade difícil de seguir, todos os grandes traços duma arte mágica primitiva ou primordial, que só os grandes criadores do surrealismo tocaram.
5 de Janeiro de 2014
NOTA FINAL
Este texto foi dado a ler a Helder Macedo, um dos primeiros protagonistas do grupo do café Gelo e seu estudioso. No seguimento, recebemos dele uma carta, de que aqui deixamos alguns extractos, que nos parecem contribuir para um melhor entendimento do grupo. Meu caro António: (…). Uma pequena correcção factual: o Gonçalo e eu, nos tempos do improvável Pedro Nunes, estaríamos por volta dos 16 anos (e não dos 15). O Manuel era um pouco mais velho. Quanto à sua perspectiva, é obviamente defensável considerar que o Gelo se tornou mais Gelo quando se identificou mais com o surrealismo. Mas a perspectiva oposta também seria legítima. Ou seja, que perdeu algo da sua originalidade quando, como bem diz, o núcleo fundador se dispersou pelas Europas. O período 1959-60 teria sido de facto o ‘momento cimeiro’? Nesse período, o Gelo nuclear continuou a exercer-se sobretudo em Paris (o café Old Navy era o local de encontro equivalente) mas também em Munique e em Londres. O José Manuel Simões (de quem o Cotrim vai publicar as Sobras Completas) é um nome que não deve ser esquecido. As associações de alguns ex-Gelo com o Ruedo Iberico (sobretudo por intermédio do Simões) manifesta uma politização digna de nota. Que aliás já tinha tido precedentes em Portugal durante e no seguimento da campanha eleitoral do General Delgado (o Herberto Helder, eu e, mais como acompanhante do que activo, o João Rodrigues). O Manuel de Castro, tal como o João Rodrigues e o próprio Herberto, também esteve fora de Portugal e foi activo no “Gelo-lá-fora”. Bem como os pintores associados ao Gelo (e não apenas ao KWY). De que Gelo se está a falar, portanto? Preferencialmente do “surrealista” ou daquele que integrou, com uma originalidade própria, o surrealismo que o precedeu? A Pirâmide foi, concordo, bem mais importante do que as Folhas de Poesia. E por isso também contribuiu para o (parcial) equívoco de se considerar como mais do Gelo os mais ortodoxamente surrealistas do que aqueles que não se encaixavam na escola. (…) Ah, o aparecimento do Mário Cesariny no Gelo. De facto não me lembro exactamente das circunstâncias, mas talvez tenha sido por intermédio do Alfredo Margarido, que eu conhecera em São Tomé, e que também me aproximou do Mário Henrique Leiria.
