Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala
Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]
Uma colecção de artigos de Onubre Einz.
VI – A Alemanha e o investimento: uma potência com os pés de barro
Onubre Einz, L’Allemagne et l’investissement: une puissance aux pieds d’argile
Criseusa.blog.lemonde.fr., 6 de Junho de 2013
Estamos a escrever um livro sobre o investimento na Alemanha e mantemos a intenção de comparar este investimento com o investimento americano. Não se trata de fazer uma comparação num espírito positivo de volumes e da taxa de investimento, isso seria pouco relevante.
Nós queremos especialmente comparar o modelo de crescimento alemão com o modelo de crescimento americano para levantar a seguinte questão: o modelo de crescimento alemão será ele diametralmente oposto ao modelo de crescimento americano ou será que não se encontram semelhanças entre os dois países?
A questão que nos interessa aqui é a seguinte: a economia dos EUA tem tido a tendência para ter um importante aumento do rendimento dos 10 % das famílias mais ricas – alargadas para os 20% das famílias mais ricas, se quisermos alargar o leque de análise. Este aumento teve dois efeitos principais; por um lado uma diminuição da parcela do rendimento dos percentis de 1 a 80 das famílias, por outro lado, uma queda da taxa histórica de investimento ainda chamada a taxa de acumulação de capital, esta queda é constatada tanto no investimento privado como no investimento das administrações públicas. Não vamos voltar a analisar os mecanismos complexos que permitiram a transferência de rendimento para as famílias do topo da pirâmide social: a enorme polarização dos salários, os rendimentos da propriedade directa e indirecta do capital produtivo, as desigualdade de distribuição de riqueza financeira e do endividamento foram os instrumentos dessa transferência, ampliando as desigualdades de rendimento. As mais-valias mobiliárias de cessação (e acessoriamente imobiliárias) desempenharam um papel mais apagado nesta enorme transferência de riqueza entre grupos sociais.
No caso americano, a escolha do crescimento nos desequilíbrios externos da balança de pagamentos e dos fluxos de capitais levaram a uma tolerância marcada no rumo à desindustrialização do país que estava a ser seguido: os bens de consumo estrangeiros baratos importados tinham a vantagem insigne de reduzirem o custo de vida e de o tornar tolerável em face das crescentes desigualdades de rendimento[1]. Os activos imobiliários também geraram uma ilusão de enriquecimento como parte de um modelo consumista.
Gostaríamos, voltando a partir do investimento – medido em volume, em taxa e pelos principais sectores – interrogar o crescimento alemão, e trata-se de mostrar aqui como é que o crescimento das desigualdades sensíveis na Alemanha desde o início do século XXI se pode ter desenvolvido e combinado com o investimento num país que continua a ser um grande exportador, e manteremos bem presente o modelo americano para apontar as semelhanças e as diferenças com o modelo alemão.
Para nossa surpresa, descobrimos que o modelo alemão e americano têm uma coisa em comum: escravizam o sistema de produção ao desejo das elites económicas de acumulação de riqueza e em que estas se apropriaram e apropriam de uma parcela crescente dos rendimentos gerados. Este desejo produz em ambos os casos, uma sub-acumulação de capital, mas este último é combinado com as trocas externas que não têm a mesma configuração. Mas nós também somos levados a constatar um ponto comum aos dois modelos de crescimento: a queda das taxas de investimento.
O plano seguido neste trabalho será simples: Vamos primeiro examinar os investimentos alemães (A1 e 2). Poder-se-á em seguida examinar a lógica de investimento e de crescimento tendo em conta as realidades europeia e americana (B). Interrogar-nos-emos sobre as razões pelas quais as taxas de investimentos são orientadas à descida nos EUA e na Alemanha e observar alguns dos paradoxos de crescimento alemão (conclusão).
Tocar-se-á portanto numa questão mais abrangente: as causas da crise económica dos países do Espaço Atlântico. E isto não é a falsa retoma da economia dos Estados Unidos que nos impede de defender a tese de uma depressão do Atlântico Norte, ainda não superada actualmente.
________
[1] Como tradutor não resisto a colocar aqui uma afirmação do pai da livre-troca à escala mundial, Paul Samuelson, afirmação feita já no fim da sua vida. Mais vale um emprego, um salário real condigno, que os 20 por cento a menos nos preços de Wal Mart!
________
[1] O título dado à colecção é da responsabilidade do tradutor.
________


