Conheci o Luiz Pacheco, por acaso. Cruzámo-nos, várias vezes, no Alfarrabista do rés-do-chão, à entrada da Academia de Amadores de Música, onde eu estudava. Lá vinha ele e as palavras obscenas em maré de hilariante bebedeira; eu fugia quando o avistava a palmilhar a rua da Trindade. Inesperadamente, encontrei-o no Fundo de Fomento Florestal, no meu primeiro emprego de jovem, iniciado durante as férias escolares [de 1979]; uma prima economista era a chefe de departamento. Mas por coincidência, o Luiz costumava ir aí visitar um amigo, nos intervalos do almoço ou do lanche, aproveitava para cravar discretamente umas “massas”, uma cervejola, lançava uns piropos e todos riam, dentro dos limites e devido respeito tal como o local exigia. Certa ocasião, meteu conversa comigo. Levei-lhe um livro. Voltou após alguns dias e devolveu-mo com uma dedicatória que dizia: “Quero mais!”
Anos depois, em 1989, reencontro o Pacheco em Setúbal, regressava ao lugar onde já tinha vivido. Sempre o acaso, a circundar… O Luiz já conhecia o João Raposo e começou a ser assíduo frequentador da Uni-Verso; passámos a conviver mais de perto, em boa amizade, embora com algumas desavenças quando os copos o tornavam difícil de aturar. Por vezes íamos ao restaurante almoçar; num desses dias, eu tinha um dedo ferido, com uma ligadura, o Pacheco rindo num impulso leviano, apertou-me o dedo, magoando-me; levantei-me da mesa e saí, na intenção de não voltar a falar-lhe. No dia seguinte, veio à livraria, desculpar-se, à sua maneira sui generis, ofereceu-me um dedal branco de loiça, com um pequeno coração vermelho estampado e a inscrição “ocupado”. Surrealista, claro! Abeirava-se Novembro de 1990, a Estuário reeditava O Teodolito, de Luiz Pacheco. Chegado o dia do grande lançamento do livro, em voo enxergando o estrelato, no Convento de Jesus, em Setúbal, todos esperavam o “revolucionário” Pacheco! Surgiu um pássaro negro esvoaçando, museu adentro por engano, estonteado, fustigando o tecto, procurando a saída. Era um sinal (pensei), ele não iria aparecer. Momentos depois, chegou o Teófilo a apresentar desculpas, dizendo que o Pacheco “estava doente”. Ficou no quarto protegido pelo anjo, do bairro, S. Gabriel. Brilhou pela ausência. Sei que se aflige com aparições em público, enquanto protagonista, ele que aparenta tanta extroversão.
[extracto dum texto inédito, O Guardanapo de Linho]