A IDEIA – VISITA A LUIZ PACHECO E OUTRAS COISAS MAIS – por Manuel Silva Ramos

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 Foi nos primeiros anos do novo século que fui ver e entrevistar o Luiz Pacheco: rumei para o lar do Príncipe Real mais o meu amigo Hélder Santos, do Grupo Desportivo e Cultural do Banco de Portugal, e um cameraman que filmaria o encontro. No primeiro andar deste lar respeitável uma coisa me impressionou: o descalabro físico dos idosos aí reunidos em atitudes e posições inconcebíveis. Estava-se ali na antecâmara da morte. O Luiz Pacheco, ou a bomba sem relógio, vivia pacatamente no segundo andar, alheado daquele universo moribundo, com quem não se dava, num quarto donde nunca saía unicamente constituído por uma cama, um armário e uma grande garrafa de oxigénio num canto. Logo que entrámos no quarto, o escritor disse logo: “O meu filho número dois veio ontem”. Assim começava a causticidade do Luiz Pacheco que se foi desenvolvendo à medida que lhe ia colocando as perguntas. O Luiz Pacheco que era asmático vivia num quarto com tecto alto, cuja janela dava para o Bairro Alto e claro, sendo a pessoa mais viva residindo naquela instituição de acolhimento de idosos, vivia com a sua grande inteligência na solidão mais extrema. O Luiz Pacheco era um conversador nato e a nossa entrevista desenvolveu-se a uma velocidade espantosa e sempre a ser filmada pelo cameraman judicioso. Hoje esta entrevista inédita, totalmente filmada durante perto de vinte minutos, é pertença do Grupo Desportivo e Cultural do Banco de Portugal e é um documento raro e merece um visionamento público. Nessa tarde saí desse lar com a sensação de ter deixado para trás um homem cheio de energia, cabotino e magnífico, imprevisível e mágico, que não tinha medo da morte e que escolhera a reclusão como forma de facilidade de vida tal como Robert Walser escolhera o internamento voluntário numa clínica psiquiátrica da Suíça. Luiz Pacheco viria a morrer seis anos depois desta entrevista que lhe fiz.

 Se André Breton estivesse vivo e fosse nosso compatriota, teria metido imediatamente Luiz Pacheco na sua “ Antologia do Humor Negro”. E nós, claro, lembrar-nos-íamos de outro grande poeta aí incluído: Charles Cros, genial poeta francês vagabundo, que pedia esmola à porta das igrejas para sobreviver. Quer isto dizer que a pobreza vivida por Luiz Pacheco (mais a sua boémia, a sua loucura, misturada com álcool, bissexualidade e desenrasquices) dá ainda mais valor à sua obra literária. Que um homem desesperado (mas cheio de humor) tenha conseguido criar no meio de tanto desvario e fome, só pode ser louvável e valoroso. Luiz Pacheco tem três obras-primas e ninguém lhas tira: O Teodolito, O Libertino passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor e Comunidade. A beleza da linguagem presente na Comunidade é total e o tema (sórdido) acaba por ser sublime. Em O Libertino passeia por Braga… o texto é de uma grande subversão e as cenas do jardim onde o narrador encontra duas rapariguinhas assim como a cena do soldado lúbrico condescendente numa pensão barata, são antológicas. Já O Teodolito mistura alegremente Júlio Verne e Sade num corredor familiar dos anos 50. Há uma história vivida por ele e o meu amigo Fernando Madureira (um autor a descobrir) que é hilariante. O Pacheco em 1979 publicou, na sua editora Contraponto, a terceira edição do Acidente Ocidental do Madureira que entretanto se tinha suicidado no Porto nos últimos dias do ano de 1977. Numa noite tremenda de copos, o Pacheco e o Madureira chegaram à Sé de Lisboa onde havia um velório. Então o que fez a parelha? Resolveu fazer desporto. Cem metros barreiras. Correram pela igreja silenciosa, saltaram o caixão com o morto mas saltaram mal e estatelaram-se com o defunto, flores e círios. Claro, os familiares chamaram a polícia e os dois foram engavetados. É no prefácio ao Acidente Ocidental, escrito por Luiz Pacheco, que há esta frase reveladora: Quando uma data de imbecis se unem para acoimar um só, é que algo vai errado na opinião geral. Eu que o diga, cavalheiros estimáveis e virtuosas damas. Como editor, Pacheco foi fundamental na introdução de um novo gosto literário. Uma vez ia eu para Paris (isto foi durante o meu exílio francês) e parei em Tours. Havia uma feira de velharias na rua e às tantas topei com um montão de livros. Aproximei-me e comecei a folhear. E no meio do molho descubro, para meu grande espanto, Pena Capital do Cesariny, editado pelo Pacheco na Contraponto, a primeira edição. Comprei-o por um franco. É um exemplar que ainda hoje conservo, pois para o exilado dessa altura era uma forma de abraçar os dois exilados interiores: Cesariny e o Pacheco. Tenho também o exemplar nº 69 do Uivo do Coiote que o Luiz Pacheco enviou a uma certa senhora. Encontrei o exemplar na Feira da Ladra de Lisboa. A assinatura do Pacheco tem aí um rabisco imponente e este “livro enviado pelo Editor” pedia directamente dinheiro à leitora que, decerto, lho enviou. Era esta a forma usada pelo Pacheco para recuperar imediatamente o dinheiro investido na edição do livro. E de poder ganhar alguns trocos. A lenda do truculento Luiz Pacheco, a sua vida bocageana ou à maneira de Gomes Leal, assim como os seus escritos transgressivos, ficarão eternamente na literatura portuguesa. Uma literatura, a maior parte das vezes correcta e cultivada por gente em pantufas (Lobo Antunes e companhia) ou oportunistas políticos e sentimentais (Saramago etc). E é tudo por hoje, sobre este autor singular, “pai de sete filhos e meio”.

 

4/3/2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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