CICLO DE CONFERÊNCIAS NO TEATRO CAMÕES, “EU NÃO PERCEBO NADA DE DANÇA”, DIA 2 DE JUNHO
clara castilho
Ciclo de conversas em torno da dança a propósito da programação da Companhia Nacional de Bailado, com curadoria e moderação de Cristina Peres.
Ao longo dos 20 anos em que fiz regularmente crítica de dança em jornais, quase sempre que convidei alguém a acompanhar-me fui avisada: “Olha que eu não percebo nada de dança…”. A declaração foi repetida por pessoas muito diferentes, com backgrounds sociais e formações muito diversas – algumas até artísticas, ainda que de outras áreas. Tinham em comum a preocupação de confessar “não compreender” a dança. A dança é provavelmente a arte com a qual a universalidade das pessoas com maior naturalidade poderia implicar-se e ligar-se, por ter como condição da sua existência e comunicação o corpo e o movimento. Estes são comuns a todas as pessoas – as que praticam e as que apreciam dança – e por isso me perguntei com frequência por que razão seria que ninguém referia sentimentos ou emoções ao confessar a sua “dificuldade” perante a dança, por exemplo, “eu não sinto nada com dança”. Ponderei vezes sem conta por que não ousariam as pessoas colocar o raciocínio como subsidiário da experiência desse território que têm em comum com todas as outras pessoas e que é presente, enorme e inevitável: o corpo e o movimento. Apercebi-me também, em sequência e por isso mesmo, que eram raríssimas as pessoas a quem eu tivesse ouvido afirmações como “não compreendo a música” ou “não percebo nada de artes plásticas”. Relativamente a estas artes ouvia um “não gosto” disto, um “não percebo nada de pintura abstrata” ou um “não tenho paciência para Stockhausen”, afirmações que são, mesmo assim, de outra natureza.
Por que exigem as pessoas, em primeiro lugar, compreender a dança? E por que é que, em segundo, afirmam tão prontamente a sua impossibilidade?
Quando a direção da Companhia Nacional de Bailado me dirigiu o convite para imaginar uma série de conversas públicas que pontuassem a programação que fez para a temporada janeiro-julho de 2015, lembrei-me que seria uma belíssima oportunidade para propor a uma série de palestrantes que viessem ao teatro da dança estabelecer um diálogo entre si a partir dos seus pontos de vista e, ao mesmo tempo, que o partilhassem todos os outros. Não sei se se conseguirá dar uma resposta universalmente satisfatória às duas perguntas escritas acima destas linhas. Ou se esse seria sequer o objetivo mais premente. Porém, e aconteça o que acontecer, nenhuma combinação de palestrantes, por mais exógena que pareça, vai inibir o público de participar num fenómeno para o qual se encontra tão munido de instrumentos como os palestrantes: um ponto de vista. Todas as pessoas têm um ponto de vista. Para tornar a equação mais justa, propus que os convidados olhassem a dança a partir das suas disciplinas e linguagens e estabelecessem as conexões que achassem pertinentes,retirando-lhes assim qualquer hipótese de confissões apriorísticas como “eu não percebo nada de dança”.
Cristina Peres, Setembro 2014
O PÁSSARO DE FOGO
TEMA 5: REPRESENTAÇÃO
2 de junho às 18h30
Convidados José Domingos Rego e Céu Guarda José Domingos Rego é artista plástico e professor de Belas Artes
Céu Guarda, formada em Belas Artes, é fotógrafa (Kameraphoto)
O video mapping é uma linguagem, ou tem um resultado, que fala eloquentemente um vocabulário da atualidade: é uma “habitação” sobreposta à realidade onde é projetada, tem uma existência própria bidimensional que é também “informada” pelas formas e texturas dos lugares em cujas superfícies é projetada e tem uma proposta de totalidade, na medida em que envolve os espaços e as audiências. A história do teatro de sombras, bem como outras técnicas do passado, já utilizavam estes conceitos e obtinham resultados de natureza semelhante. A propósito da dança e para lá dos novos meios técnicos, que abrem possibilidades e escalas de realização potencialmente infinitas, vamos refletir sobre os diferentes modos de representação do corpo. Entre o gigantismo do video mapping e as miniaturas em petit point, por exemplo, “quanto” é preciso do corpo para se poder considerar que ele está representado? Depende este conceito de uma forma física ou de uma ideia? Onde se encontra o corpo que não é figurado? Abstração é ausência? Qual a distância entre visão e percepção?