Na mesma semana em que jornais publicaram fotos reveladoras da situação trágica de adolescentes grávidas na região do crack, a “Cracolândia” de São Paulo, foi divulgada a notícia sobre uma menina de 9 anos, moradora desse mesmo lugar que, tendo se submetido a um teste rigoroso, conquistou uma bolsa para estudar balé na Escola do Teatro Bolshoi do Brasil, em Joinville, no estado de Santa Catarina. A menina se chama Vitória Beatriz e desde muito pequena foi beneficiada pelo extraordinário projeto social da bailarina e professora Márcia Ilana, a Casa dos Sonhos, onde estudam dança e são alimentadas meninas que muitas vezes não têm o que vestir ou o que comer. Vitória Beatriz, cuja mãe perdeu o emprego para não deixar de apoiá-la, enfrentou uma difícil competição, mas foi aceita e vai estudar durante oito anos na escola catarinense, a única extensão estrangeira do Teatro Bolshoi de Moscou no mundo, que a transformará numa bailarina de nível internacional.
Assim é o Brasil. Tendemos a pensar, então, que “nem tudo está perdido”. Mas na sexta-feira, dia 26, tomamos conhecimento de uma enquete sobre violência doméstica feita no Rio, segundo a qual 39% das mulheres vítimas de maus-tratos “admitem ter sofrido agressão, mas 71% não denunciaram.” E os números são assustadores: 95% das vítimas são mulheres, mais de 61% “têm entre 18 e 45 anos” e “72,4% são negras e pardas.”
Há pouco tempo, no início do mês de junho, na nossa vizinha Argentina houve uma grande mobilização contra a violência de gênero, apoiada por ativistas, artistas e intelectuais, políticos e celebridades. Lá, segundo a jornalista Flávia Oliveira, do jornal O Globo, “morre uma mulher por dia, aqui são 15.”! A desigualdade entre homens e mulheres continua gritante em nosso país. A diferença entre os salários de uns e de outras continua de 30% . E na publicidade, a exploração desrespeitosa da imagem da mulher continua chocante.
Mulheres são espancadas, estupradas, assassinadas e não há uma reação da nossa sociedade civil contra isso. “De acordo com o dossiê Mulher, do Instituto de Segurança Pública – baseado em ocorrências registradas nas delegacias do estado do Rio -, em 2014 houve um aumento de 18% no número de homicídios dolosos. (…) Os estupros também mereceram destaque. Naquele ano, a cada dia, 13 mulheres, em média, foram vítimas no estado.”
E eu volto a pensar na urgência de uma lei que obrigue as escolas de todos os níveis a ministrar, uma ou duas vezes por semana, aulas de educação sexual e de cidadania, com ênfase nas regras básicas de bom convívio, de respeito aos outros, de solidariedade, de espírito coletivo, de tolerância e de compaixão. Sim, tudo está ligado a tudo. A educação não pode se limitar à instrução, precisa ser orientadora, formadora, socializadora. E os pais precisam também, com urgência, participar, dividir essa responsabilidade com os professores.
Haverá algo mais dramático para uma adolescente do que uma gravidez acidental? Como é que estamos educando nossas filhas e, principalmente, nossos filhos? Como é que os estamos preparando para a descoberta de sua própria sexualidade, de seus desejos e de seus impulsos? Será que lhes estamos dizendo que os seres humanos somos capazes de experimentar na relação sexual além de sensações, emoções e sentimentos? Será que lhes estamos transmitindo a poesia e a beleza que pode ter um encontro amoroso? Que o sexo é uma forma de comunicação e uma expressão de alegria saudável, positiva, enriquecedora? E será que os estamos alertando para as consequências de seus atos, ensinando-lhes métodos de contracepção para que não sofram mais tarde? Quando é que vamos aprender a proteger nossos filhos de sua própria ignorância e superar a nossa inaptidão em falar do que é essencial em suas vidas? Quando é que vamos ter a coragem de sermos solidários com a inexperiência deles e suficientemente humildes para tentarmos auscultá-los e entendê-los em suas inquietações?
Insisto: E se a “Pátria Educadora” promovesse em cada canal de televisão e em cada rádio meia hora por dia de esclarecimentos sobre a sexualidade, o respeito ao outro e a cidadania?
O ministério da Educação tem agora um filósofo e Professor de Ética. Sonho com a possibilidade de que esta minha Carta lhe chegue às mãos.