CARTA DO RIO – 61 por Rachel Gutiérrez

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Houve uma vez um menino de olhos grandes e sorriso sedutor, que morava no Leblon, em frente ao mar, no mesmo prédio em que vivia Lúcio Costa, um dos criadores de Brasília. E o menino de olhos grandes e sorriso muito aberto mergulhava nas águas verdes daquele mar, mas também em muitos livros dos mais de vinte mil volumes da oceânica biblioteca de seu pai. A mãe, de quem o menino herdou os grandes olhos e a alma dançarina, iria viver cem anos de doçura e bondade. O pai, homem ilustre, pensador e escritor, era médico, advogado e tocava piano. O menino quis também tocar piano e desde cedo estudou com o grande mestre Guilherme Fontainha. E foi num velho colégio em Botafogo, onde Fontainha dava aulas, que o conheci. Ficamos logo amigos, quase irmãos. Pouco mais moço do que eu, Alécio também amava as línguas, a poesia, e ainda adolescente, sabia de cor Alfred de Vigny, Verlaine, Baudelaire. E a poesia inglesa, que recitava com britânica pronúncia, também lhe era familiar. Leu muito Fernando Pessoa e se identificava principalmente com Álvaro de Campos, o angustiado heterônimo de quem gostávamos de dizer, juntos, a  Tabacaria.  E a paixão pelo piano e pela música o levaram a fotografar, mais tarde, entre outros, intérpretes famosos como Artur Rubinstein, Rostropovich, Sviatoslav Richter, Claudio Abbado e Alfred Brendel, de quem se tornou grande amigo, na Europa.

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Pois o rapaz, com seu ar de menino e seu sorriso sedutor, que havia pensado em ser pianista, que estudara Direito e publicara poemas, tendo recebido um primeiro prêmio das mãos de Paulo Mendes Campos, e mais outro, concedido por Cecília Meireles e Vinicius de Morais, depois que descobriu a fotografia, rendeu-se totalmente à arte de Cartier-Bresson, para tornar-se, em Paris, onde viveu mais de trinta anos, esse grande e original fotógrafo que foi Alécio de Andrade, conhecido hoje no mundo inteiro.

Seu tema preferido eram as crianças, a inocência, a esperança. Baudelaire disse que o gênio nada mais é do que a infância reencontrada pela vontade. Em Alécio, o amor pelas crianças fazia dele um fotógrafo genial.

Seu outro dom era o de fazer amigos e de sentir-se inter pares com os mais interessantes e expressivos poetas e escritores do seu tempo: Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Marques Rebelo, Antonio Bulhões, e vários outros. Marques Rebelo, o mais carioca dos romancistas do século XX, que o conheceu menino, tratava-o com paternal ternura e profunda admiração; Otto Lara era íntimo e fraternalmente cúmplice, como Antonio Bulhões; e Carlos Drummond de Andrade saudou com um belíssimo poema sua primeira exposição sobre o tema da infância. Em outro poema disse:

 O QUE ALÉCIO VÊ

A voz lhe disse ( uma secreta voz):

– Vai, Alécio, ver.

Vê e reflete o visto, e todos captem

por teu olhar o sentimento das formas

que é o sentimento primeiro –  e último – da vida.

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Ai, as crianças… Para elas,

há um mirante iluminado no olhar de Alécio

e sua objetiva.

(Mas a melhor objetiva não serão os olhos líricos de Alécio?)

Tudo se resume numa fonte

e nas três meninas peladas que a completam,

soberba, risonha, puríssima, foto-escultura de Alécio de Andrade,

hino matinal à criação

e à continuação do mundo em esperança.

 

No entanto, não só a infância interessou os “olhos líricos” de Alécio, algumas paisagens e, acima de tudo, a paisagem humana, os rostos humanos. Fotografou Susan Sontag, James Baldwin, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Simone Veil, a ministra da Saúde defensora das mulheres, Oscar Niemeyer, Di Cavalcanti, Henry Miller. Jean Genet e muitos, muitos outros; os visitantes do Louvre; os manifestantes de maio de 1968, em cliques  antológicos; naturezas mortas: cafés, feiras  e bric-à bracs, ruas e jardins de Paris. Sensacionais são suas freiras, tanto no Louvre quanto na rua; clochards, moradores de rua; cavalos gatos, cachorros chiques e cachorros vagabundos. Mulheres: seus poucos nus femininos são de grande delicadeza, jamais eróticos ou provocativos. Uma mulher lendo podia interessá-lo tanto quanto a intimidade de uma companheira ou uma ativista, uma manifestante ou uma freira tomando sorvete. E os casais, centenas de casais: velhos casais com suas bengalas e guarda-chuvas, e, sobretudo, jovens casais enamorados. Ah! o amor, sempre o amor: à margem do Sena ou numa praça casais conversam, riem, se abraçam. Um ciclista ou uma banda de gaitas de fole escocesa, a vida passando, tudo é bonito, tudo interessa aos olhos grandes do eterno menino, à sua objetiva e ao seu sorriso irresistível.

 Um olhar intenso e uma vida intensa. Alécio de Andrade, o amigo que perdi de vista por muitas décadas, só revi em 1985, no lançamento de meu primeiro livro. E agora o reencontro em sua obra magnífica, graças à dedicação exemplar de sua viúva, Patricia Newcomer, que não mede esforços para divulgá-la e enaltecê-la. Muitos poetas morrem cedo.  Não só para os que o amaram, Alécio de Andrade (1938-2003), cuja exposição de retratos, nos Correios, se encerra neste domingo, morreu cedo demais.

 

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