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A noite dos estúpidos, uma noite que dura há já cinco anos – por Christine I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

GRÉCIA : A NOITE DOS ESTÚPIDOS, UMA NOITE QUE DURA HÁ JÁ CINCO ANOS

 

GRÈCE : LA NUIT DES DUPES, UNE NUIT QUI DURE DEPUIS CINQ ANS ET DEMI

Christine, publicado por Okeanews

 

Regressemos à noite do voto do 3.º Memorando que impõe à Grécia uma série “de reformas” em troca de um novo empréstimo de 85 mil milhões de euros.

“A noite de 13 a 14 Agosto de 2015” – Dimitris Hantzopoulos, jornal Kathemirini de 14 Agosto de 2015

 

Geralmente, traduzo (é o que faço para ganhar o meu pão do dia a dia). Como tradutora não digo o que penso. Mas, este golpe, é uma coisa bem diferente. Embora, num certo sentido, tratar-se-á outra vez de traduzir. Mas, será traduzir em palavras toda uma vivência. Vivida no dia 13 e na noite de 13 para 14 de Agosto: o golpe de morte

Faz já mais de cinco anos agora que eu leio, ouço, discuto e disputo-me, para compreender o que nos caiu sobre a cabeça, aqui, na Grécia e, para lá dela, “na Europa”. Nunca foi conservadora (excepto na escola primária onde era obrigada todas as manhãs a cumprimentar a directora da escola…) e o que conheci mais “à esquerda” era o partido comunista grego do final dos anos 70 e do início 80. A ditadura dos coronéis tinha-me tocado muito pouco ( na altura tinha 11 anos e pouco quando tiveram que deixar o poder) mas vivi uma certa mentalidade (o do caporal ou do controlador de autocarros que se acreditam investido do poder supremo e saído da coxa de Júpiter….).

Estive ausente da Grécia entre 1982 e Setembro de 1990. Por conseguinte, certas coisas bem importantes, não as vivi em primeira mão. Mas, tive o tempo de viver “A mudança”, com a chegada de Andréas Papandréou ao poder. “A Grécia pertence aos Gregos” (e “o mar Egeu pertence aos seus peixes”, como se podia ler sobre certas paredes …). Eu tinha partido e enquanto que o movimento de antipsiquiatria crescia… fui estudar psicologia clínica. Após o primeiro ano, o movimento já se tinha reduzido fortemente … mas, eu prossegui.

Tudo isto para estabelecer as minhas coordenadas pessoas E dizer que não falarei enquanto especialista…

Assim, as medidas de austeridade começaram a chover desde há cinco anos. Medidas “inevitáveis”, “merecidas” de acordo com alguns… Nós aprendemos termos novos : serviço da dívida pública, MEE, BCE, FEEF, credores, memorando, soberania nacional, solidariedade… os Comissários de nomes estrangeiros “explicavam-nos” que tínhamos vivido mal num Estado que o não era e que nos iam fornecer toda a “assistência” necessária de modo que nos iríamos tornar-nos finalmente num Estado digno deste nome! Certos Gregos – políticos, industriais, “ intelectuais”, sobretudo – consideravam que “o memorando” era uma bênção…

Os memorandos “engoliram” um número não negligenciável de governos eleitos ou no poder colocados pelos bons cuidados dos nossos “parceiros” europeus.

Entretanto, fizemos um mais amplo conhecimento com a extrema-direita, com o desemprego crescente, a injustiça profunda das medidas, os suicídios, os dispensários sociais geridos por médicos benévolos que queriam ultrapassar as lacunas do Estado que nada mais fazia do que estar a reduzir-se no decorrer dos tempos e das medidas por ele tomadas.

Não, os Gregos não aceitaram o seu destino. Revoltaram-se. Nesse primeiro verão, as praças foram ocupadas por milhares de indignados… eles reclamavam alto e bom som a queda do governo, o respeito da Constituição, a dignidade, enfim! Bateram-se ao ponto de serem espancados (“pelas forças da ordem” e por aqueles que alguns chamam “os bombeiros “ aqueles que diziam “esperem um pouco até que chegaremos ao poder e depois verão …”, mas voltaremos a esta questão.

A guerra psicológica foi conduzida (e é-o sempre) de maneira magistral. O truque do chicote e da cenoura, a tortura da gota a gota, a culpabilização, a adulação, houve de tudo … e sobretudo o terrorismo, sob todas as suas diversas formas… infligido pelas cadeias de TV privadas e pelos jornalistas de que alguns estariam a soldo de diversos empregadores sobretudo cobardes … não acompanhar os telejornais JT e as emissões de info é de toda a maneira uma forma de sobrevivência psicológica…

Compreendam-me bem. Pessoas como todos nós, que se têm saído mais ou menos bem até aí, de repente encontravam-se na situação de   dever a toda a gente: bancos, fisco, segurança social… todos… Acabamos por nos questionar se não se irá também taxar o ar que respiramos …

Χρέος  = Dette, Ύφεση = Récession, Λιτότητα =Austérité (par Georgopalis)

Syriza por conseguinte chegou, após cinco anos, com um programa que era todo ele o contrário do que vivíamos. Falava de dignidade, de crise humanitária (expressão que era já um problema para mim, porque penso que uma crise humanitária resulta de uma catástrofe natural ou de uma guerra… o que é que se tinha passado connosco?), de curar as feridas abertas pela austeridade, falava em voltar a dar aos Gregos a sua dignidade e o seu gosto pelo trabalho e pelo que se fazia , do seu gosto pela vida…

“Os parceiros” europeus e outros mostravam-se ultrajados com a ideia de ver estes “radicais de esquerda” chegar ao poder… viveu-se uma propaganda sem precedentes e das intervenções inumeráveis quanto ao que devíamos votar e, sobretudo, sobre o que não devíamos votar. (Punha-me a mim mesma a seguinte pergunta: “Mas porque fazem tanto escândalo em redor de Syriza, porque é que têm tanto medo? Não sabem que agindo e falando assim, empurram ainda mais as pessoas a votarem por ele, como isto, por reacção, exactamente para “fazer chiar os Comissários e outros parceiros”?)

E, aí está, Syriza é eleito. A alegria, a esperança, enfim! As barreiras que bloqueavam a fachada do Parlamento foram retiradas. As mulheres da limpeza do Ministério das Finanças foram de novo empregadas. Os magnatas da TV iam ser obrigados a pagar, por fim, pelo uso das ondas públicas. A televisão pública recomeçou a emitir (com certo atraso pelo 3.º canal , mais combativa…)

 

Zoé Konstantopoulou é eleita presidente do Parlamento. E trabalha no duro. E cria esta Comissão de Auditoria de há tanto tempo esperada. Mas, o governo faz como se esta comissão e, sobretudo as suas conclusões, não existissem…

E, depois, tiveram-se as famosas negociações com “as instituições” (sim, porque a Troika era demasiado maldosa, vestem-se os mesmos com outras roupagens e recomeça-se)… teve-se direito a novos termos, como “a indefinição criativa” introduzida pelo grande mestre da teoria dos jogos que se tornou ministro das Finanças… Vivemos nesta “indefinição criativa” durante vários meses… esta indefinição criativa onde se exige uma outra política mas SOBRETUDO sem deixar entender que a Grécia poderia deixar o euro e a UE… esta indefinição acompanhada de grandes tiradas relativas à dignidade, à soberania, à felicidade do povo, ao fim da austeridade… mas isto foi também acompanhado do encerramento dos bancos, dado que este bem caro (no sentido próprio como no figurado) Banco central europeu considerou correcto cortar a liquidez à banca grega…

 

(continua)

 

Texto original: http://www.okeanews.fr/20150817-grece-la-nuit-des-dupes-une-nuit-qui-dure-depuis-cinq-ans-et-demi

 

 

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