Site icon A Viagem dos Argonautas

COMUNICADO AD LOCA INFECTA (Advertência do Comité Eleitoral), por CÉSAR PRÍNCIPE

imagem110

 

 COMUNICADO AD LOCA INFECTA

Advertência do Comité Eleitoral

Cadáver na urna

 

Se Cristo foi crucificado na companhia de dois ladrões, o BPP/Bom Povo Português tem vindo a sangrar, a expiar e a expirar no lenho por obra e graça do bando dos seis – ao que o CE/Comité Eleitoral apurou – assumidos representantes do ICEA/Império Cleptocrático Euro-Americano. O trio autóctone e o trio exógeno acertaram, sem grandes discrepâncias e pruridos, o tempo de sanguessugar e o preço do calvário. Periodicamente, o trio aborígene busca escudar-se no sufrágio das vítimas, tudo fazendo e dizendo para que assumam as responsabilidades do suplício. Estamos em período de auscultação do pulsar populi. Ninguém cometa, pois, o pecado da incompreensão, da ingratidão e da hostilidade. Todo o flagelado deve lamber o azorrague. Todo o cativo deve bendizer as grades. Toda a ovelha se deve deixar ordenhar e tosquiar. Todo o fedor é de bode expiatório. É dos códigos profanos. É dos livros sagrados. É dos ciclos de exploração intensiva.

 

Excelentíssimo Cidadão,

Procure saber (atempadamente) onde terá de depositar o boletim da sua cruz. Envergue a túnica das filas de condenados e a coroa de espinhos mais lacerante. Se é pessoa dada a cortejos de oferendas ou prendas no Dia dos Namorados ou se é de amores sofridos e já se habituou à via penitencial – não vacile – ofereça os pregos aos seus algozes para minorar as despesas da crucificação. A austeridade – isto é – o desapego ou desapossamento das coisas terrenas, pressiona os sem-terra e sem-abrigo e sem-emprego e sem-reforma e sem-cêntimo e sem-cabeça para que se martirizem por terem abusado do bem-estar, confiados nos rendimentos mínimos dos tempos das vacas gordas e loucas. A prosperidade a raros é reservada e assegurada. É da dura lex da luta de classes, da distribuição da pobreza e da riqueza. Leia os livros.

Excelentíssimo Cidadão,

Coloque a cruz ou o X nas quadrículas. Nas exactas. Nas recomendadas pelo rotativismo situacionista. Nas que garantem miséria, ignorância e medo como apólices do empreendedorismo sem risco. Em caso de dúvida, confie nas expertices da Funerária Merkelusa. Só terá que se preparar para um choque nasal. Há muito morto-vivo a exercer o direito de decidir o destino das nações. Obviamente o seu e o deles. Facto conhecido e reconfirmado. Pelo menos desde o séc. XVIII: O Reino da Estupidez.1  Realmente a frincha do Dia do Juízo exala o característico cheiro loco dolenti.2 O parfum é inconfundível. Tem marca registada. Pelo menos desde o séc. XVIII: Reino Cadaveroso.3 Tem estudo de caso. Pelo menos desde o séc. XX: Peregrinatio ad Loca Infecta.4

Para os convertidos à pestilência basta um lenço.

Os demais terão de replicar à peste com a cólera.

  1. Poema de Francisco de Melo Franco (1757-1823). Intelectual iluminista do período pós-pombalino. Perseguido pela Inquisição, foi internado num hospício de loucos para não perturbar a Ordem da Tacanhez.

  2. Loco dolenti. Sítio dolente.

  3. Expressão de António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783). Médico, cientista, filósofo. A figura mais cosmopolita do Portugal de então: a sua aura ia de Paris a Moscovo. Naturalmente sofreu as sanhas do Santo Ofício. Entre os transes que foi chamado a diagnosticar e a tratar (no Ocidente e no Leste), contavam-se as febres pestilentas.

  4. Poemas de Jorge Cândido Alves Rodrigues Telles Grilo Raposo de Sena (1919-1978). Olfacto de exílio.

CÉSAR PRÍNCIPE

Exit mobile version