Lembro hoje, com saudade, o humanista uruguaio, defensor incansável dos oprimidos, das mulheres, dos velhos e das crianças, dos animais, da Natureza, dos explorados e dos maltratados, da democracia e da liberdade, em suma, um raro homem de bem e um escritor admirável. Eduardo Galeano, (1940-2015), que em seu exemplar ativismo jamais perdeu o entusiasmo, gostava de explicar o significado dessa palavra (que contém theos – deus) como traer los dioses adentro!
Ah! Galeano, está muito difícil manter o entusiasmo num mundo que, como diz em artigo (do jornal O Globo de 19/09) o nosso Senador Cristovam Buarque, pelo “erro do sucesso” da globalização “ficou pequeno, mas no lugar de incluir todos, [preferiu] cortar o planeta com uma cortina de ouro separando beneficiados e excluídos do progresso.” Buarque mencionou também o “erro do sucesso da força”, que permitiu ao Ocidente “intervir nos assuntos internos dos países do Oriente Médio, desagregando-os.” Além disso, podemos perguntar: que direito têm os europeus de recusar abrigo, agora, aos descendentes daqueles que tão bem souberam explorar no período colonial? Inexoráveis são os refluxos da História.
E no nosso Brasil atual, igualmente inexoráveis são as consequências do “comportamento errático e randômico, imprevisível e ilógico dos que deviam governar o país, e com essa obrigação foram eleitos”, como afirma com indignação, no mesmo jornal, a escritora Ana Maria Machado, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, ao abordar a crise política, econômica e ética que se agrava a cada dia e atinge a todos nós.
Outra afirmação de extrema gravidade, amplamente noticiada, foi a do Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, quando criticou o governo do Partido dos Trabalhadores. Disse ele: “ – Na verdade, o que se instalou no país nesses últimos anos e está sendo revelado pela Lava-Jato é um modelo de governança corrupta, algo que merece um nome claro de cleptocracia.” É inegável que a versão brasileira das Mãos Limpas, da Itália, tem revelado escândalos que se sucedem, assustadoramente, como ondas de um tsunami.
Enquanto isso, o dólar e a inflação sobem, o desemprego aumenta, os programas sociais são adiados ou simplesmente cortados, o poder aquisitivo cai e cresce a insatisfação geral. E o governo não cumpre as promessas tantas vezes anunciadas de reduzir seus próprios gastos astronômicos.
Uma cientista política, Maria Celina d’Araújo, da PUC-Rio sugeriu, entre várias medidas: “diminuir em 90% a propaganda oficial no rádio e na TV; acabar com a frota de limusines e suítes presidenciais em viagens de autoridades ao exterior; vender casas/palacetes oficiais de vice-presidente, presidente de Senado, Câmara etc.; acabar com pensões e aposentadorias especiais para autoridades e políticos; acabar com as mordomias dos parlamentares – carros, telefones etc.”
Se algumas dessas medidas fossem tomadas, além, é claro, da diminuição dos injustificáveis 39 ministérios, penso que os pedidos de impeachment da presidente cessariam de chegar, como vem acontecendo, na Câmara dos Deputados.
Voltemos à Ana Maria Machado:
“Contestar as trapalhadas dos governantes que nos levaram a este atual estado é uma forma de amar o Brasil: não é se identificar ao golpe de 64, nem servir à ditadura ou não ter história democrática, como ofensivamente quer fazer crer o líder do governo, nessa conversa de que a oposição quer cutucar a onça com vara curta.”
O quadro nacional não está melhor do que o internacional.
Pois em face de realidades que nada entusiasmam e só entristecem, hoje não vou sequer apelar para a minha amiguinha Esperança, mas surpreendendo, talvez, meus poucos leitores, tento me consolar com um pouco da música de um dos meus deuses, o imenso Louis Armstrong, que foi puro entusiasmo nesta terra, pura alegria e beleza extraída do seu trompete mágico e do seu coração. Quando esse artista extraordinário morreu, num dia de julho de 1971, um dos antigos jornais do Rio, não lembro se o Correio da Manhã ou o Jornal do Brasil, estampou no segundo caderno a comovente manchete: “Satchmo ou quando o século morre um pouco.” Sua música, porém, tão carregada de deuses, haverá de continuar ressoando neste mundo por muito, muito tempo.