Carta do Rio – 86 por Rachel Gutiérrez

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Fora do Rio por vinte e dois dias, sem notebook ou celular, sem navegações pela internet ou consultas ao google, pude fazer um tranquilo Aufhebung, palavra tão rica da língua alemã que pode ser traduzida ou “transliterada” tanto como anulação quanto conservação, levantamento ou atualização. Chego a imaginá-la significando também pausa para recomeçar. Eduardo Galeano, na página da “Celebração das Contradições”, em seu Livro dos Abraços, de 1989, diz:

Aufheben era o verbo que Hegel preferia, entre todos os verbos da língua alemã. Aufheben significa, ao mesmo tempo, conservar e anular; e assim rende homenagem à história humana, que morrendo nasce e interrompendo cria.”

Reencontramos Montevidéu, a cidade onde Galeano nasceu e onde viveu sempre que pôde, como um porto seguro, uma quase extensão da nossa casa. Banhada pelo Rio da Prata e com pouco mais de um milhão e seiscentos mil habitantes, a capital uruguaia é uma das 30 cidades mais seguras do mundo e a de melhor qualidade de vida da América Latina. Para mim, o mais importante é ter sido a cidade das férias de verão da minha infância, portanto, uma quase Pasárgada redescoberta e reencontrada.

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Alugamos um coche e fomos ao Porto, onde a vida é alegre e os restaurantes, excelentes. E muitas vezes passeamos pela Rambla, revendo as praias tranquilas do Rio da Prata: Malvin, Pocitos, a elegante Carrasco, onde o rio já começa a encontrar-se com o mar… Desta vez não chegamos até Punta del Este nem à Colonia del Sacramento, mas nos encantamos com Atlántida, o balneário situado a 45 quilômetros da capital, com suas lindas casas baixas ajardinadas, seus altos plátanos e muito, muito  verde. Um ar puríssimo…

Na noite de Natal, meu melhor presente foi ter visto um programa da TV italiana (RAI) no qual sozinho num grande palco, diante de centenas de expectadores, o magnífico ator Roberto Benigni comentou, um por um, os 10 Mandamentos do Cristianismo. Foi um espetáculo – no melhor sentido –altamente poético, além de teológico e filosófico. Acredito que mesmo os não cristãos e até os ateus, que o tenham assistido, ficaram impressionados. Benigni é genial.

Também na televisão do quarto do hotel, no dia 31 de dezembro, assisti a um documentário especial, da CNN em espanhol, sobre o Papa Francisco e durante vários dias, acompanhei as terríveis notícias sobre as inundações que assolaram tanto a Argentina quanto o Uruguai. Um final de ano trágico para tanta gente. Uma tristeza!

 E do Brasil, pouquíssimas notícias, quase nada. Aufhebung!

O ponto alto de Montevidéu revisitada foi o de finalmente termos conhecido o Café El Brasilero, fundado em 1877 por dois brasileiros e que teve, por longos anos, Eduardo Galeano como seu mais ilustre e discreto frequentador. Pois tive o prazer de sentar-me à mesa que o escritor preferia. Esse café encontra-se na Cidade Velha, perto de uma pequena praça linda e aconchegante, com suas árvores antigas, altas e frondosas que tem, no centro, um chafariz em homenagem aos Treinta y tres Orientales, cultuados heróis que libertaram o território da Província Cisplatina do domínio imperial do Brasil, em 1825. É muito agradável sentar-se nos simples e bem conservados bancos de madeira à sombra generosa daquelas árvores. No pequeno e jovem país, as praças e as ruas ainda pertencem às pessoas e as acolhem e protegem. E apesar da liberação, não vi ninguém fumando maconha em lugar algum.

A arquitetura da cidade conserva belos exemplos de Art Déco e possui muitos prédios no estilo eclético, mas há poucos, muito poucos arranha-céus. Casas baixas, no estilo espanhol, costumam ter portas altas, senhoriais, e há muitas flores nos balcões e nas janelas. A qualidade dos materiais e o acabamento das construções são bem melhores que os nossos, mas a cidade já não está tão limpa como era. Parece mais triste. O que continua intacto é a civilidade das pessoas, o alto nível de educação, a cultura e a esplêndida qualidade de vida que nos deixam com inveja.

E como se come bem em Montevidéu! Nosso último e inesquecível almoço foi num restaurante à beira do Rio, na Rambla, que se chama El Viejo y el Mar, em homenagem a Hemingway, nem é preciso dizer. E ali os peixes são fabulosos! Livros? Apenas dois de Eduardo Galeano, é claro: El Libro de los Abrazos  e  Espejos Una historia casi universal.

Depois das alegrias do Uruguai, voltamos aos pagos, à nossa fronteira e à capital do Rio Grande do Sul: a bela Porto Alegre do claro céu azul como o de Lisboa, e da maravilhosa Casa de Cultura Mário Quintana, instituição exemplar que muito nos orgulha.  E fomos à serra gaúcha, para fruir as maravilhas da admirável Gramado e dos seus arredores.

Mas isso fica para a próxima Carta.

2 Comments

  1. Como um flash proustiano, sem a menor pretensão, mas talvez pela sensação que a leitura do texto provocou em mim, revivi a experiência desta viagem familiar com a mesma intensidade. Foi como se tivesse retido um tempo feliz passado recentemente com as filhas e a irmã neste fim de 2015 e começo de 2016. . Viajar ê um dos melhores prazeres da vida, Edda

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