“O feminismo é um humanismo – Uma entrevista com Rachel Gutiérrez, a Suzana Albornoz,” no dia 1º de junho, em Liberta Mater.
Suzana Albornoz: Rachel, teu livro, O feminismo é um humanismo, foi publicado pela primeira vez em 1985, e as teses ali expostas, claramente fundamentadas, ainda hoje são válidas, o que por si só recomenda a sua leitura e divulgação, e depõe a favor de sua relevância. Todavia, antes de começar a expor minhas perguntas sobre os conteúdos do livro, parte por parte, permite-me antecipar uma pergunta geral: – O que terias a observar previamente sobre aquele teu livro, antes mesmo de responder sobre seus conteúdos particulares? Alguns aspectos teriam sido mudados, ante as mudanças das situações históricas e a evolução da situação das mulheres nos últimos trinta anos? O que terias a acrescentar?
Rachel Gutiérrez: Eu começo fazendo uma citação do que escreveu Moema Toscano, nossa amiga socióloga, na orelha da segunda edição de 2011: “É verdade que a revolução que tinha como ideário transformar radicalmente a situação da mulher no mundo ainda não nos trouxe todos os frutos prometidos.” E também reconheço, com Moema, que houve grandes avanços nestes últimos trinta anos. Porém, como observo no prefácio dessa edição, “a sociedade que hoje se caracteriza como de consumo sexual, quando os homens vivem obcecados por seu desempenho e as mulheres, por sua aparência, quando a invasão da indústria multimilionária da pornografia impregna a inteligência e o imaginário coletivos, certamente essa sociedade não corresponde ao que sonharam as feministas históricas.” É inegável o avanço social das mulheres, mas o poder econômico e financeiro, que condiciona todos os outros, como diz Elisabeth Badinter, continua na mão dos homens. Além disso, a violência contra as mulheres ao invés de diminuir, recrudesce de forma assustadora.
Suzana Albornoz: O feminismo é um humanismo se apresenta ao leitor, de saída, como uma reflexão sobre o movimento feminista que é também uma apologia. Sendo assim, apresenta-se como uma produção textual particular, em que o engajamento de caráter prático não é alijado da escrita reflexiva e filosófica. – Dirias que esse caráter é próprio dos ensaios feministas? Ou que pertence, ainda mais amplamente, a uma forma de filosofia na tradição crítica?
Rachel Gutiérrez: Sim, Suzana, o pensamento feminista dos anos que inspiraram o livro foi uma teoria da práxis da perspectiva da mulher e da tomada de consciência da sua opressão e da urgência de combatê-la. Tem, certamente, afinidades com a tradição da filosofia crítica, mas é inovadora ainda na medida em que abrange a visão sociológica e psicológica da condição feminina.
Suzana Albornoz: Teu livro é original e autoral, mas também refere um mundo de leituras rico e abundante. Pergunto-me quais julgas terem sido as principais influências sobre teu trabalho. – Pode-se dizer que a referência mais importante foi a dos escritos de Simone de Beauvoir? Ou esse fato precisaria ser matizado, pois outras leituras foram do mesmo modo importantes, como referências da tua reflexão?
Rachel Gutiérrez: Isso também é inaugural no pensamento feminista, seu “coletivismo”, digamos assim. As mulheres não pensaram sozinhas nem pretenderam individualmente responder às questões que as preocupavam. E Simone de Beauvoir, certamente, que li por volta dos dezessete anos, foi uma espécie de Hegel para nós, a abrangência inaugural da sua pesquisa marcou brilhantemente a segunda onda do feminismo mundial. Todas devemos muito a ela, que fez em relação à mulher o que Franz Fanon fez em relação ao colonialismo, e Eduardo Galeano, em relação à América Latina. Certamente, também, outras leituras ampliaram ainda mais a sua visão , como a de anões sobre os ombros dos gigantes. Kate Millet, Germaine Greer, Betty Friedan, Antonietta Macciocchi, e muitas, muitas outras, cada uma a seu modo iluminou a nossa visão do mundo e orientou a nossa militância.
Nota: A restante entrevista aborda a questão da “essência” ou “identidade” da mulher e a relação entre feminismo e capitalismo e feminismo e socialismo.