O escritor Mário Braga foi director da revista “Vértice” (1.ª série), revista de intervenção cultural com sede em Coimbra.
Um dia, Mário Braga apresentou-se nos serviços de Censura para entregar as provas com os textos para o número seguinte. Na contracapa, como habitualmente, um excerto de um poema, naturalmente de orientação progressista. Para esse número fora escolhida a famosa “Ode ao Corpo Académico”, que Almeida Garrett recitara na Sala dos Actos Grandes da Universidade de Coimbra, na noite de 22 de Novembro de 1821, e que começa assim: “Ergo tardia voz, mas ergo-a livre”, para terminar desta maneira:
Sejamos sempre heróis, e sempre livres; Sejamos, como sempre, portugueses; Vivamos livres, ou morramos homens.
Ora o censor que o governo salazarista tinha colocado para vigiar a inteligência coimbrã não esteve com meias: e perante este apelo à liberdade, negou autorização para que estes versos fossem publicados.
Bem implorava Mário Braga (…). O verdugo da cultura permanecia irredutível: não sairia!
Foi então que, no meio de acesa discussão, o director da revista, a certa altura, exclamou: -“Deixe lá sair estes versos do visconde de Almeida Garrett!”
– “Visconde? Disse Visconde? Pois este senhor é Visconde?” – perguntou, atarantado, o censor. E perante a afirmativa de Mário Braga, aquele exclamou, contrafeito:
– “Bom, se esses versos são de um Visconde, desta vez, passam. Mas diga lá ao senhor Visconde para, da próxima vez, escrever sobre outros assuntos!”
(Esta crónica, contada por Mário Braga, foi escrita por José Ferraz Diogo para o jornal “Região Bairradina” de 14-4-2004, do qual se transcreve, com a devida vénia).