
Todos conhecemos os efeitos perversos da censura no Estado Novo, com a qual muitas vezes contactámos directamente. Actuava de acordo com o nível de difusão dos órgãos de imprensa e certamente era mais vigilante e especializada quando se tratava de jornais ou revistas não alinhadas com a política do regime. Por exemplo, uma crónica, mais ou menos codificada, que aludisse a persona non grata, podia ser autorizada para o “Diário de Lisboa”, mas não era automática essa autorização se outro jornal a quisesse reproduzir.
Os censores eram muitas vezes capitães na reserva, sem grande preparação, o que complicava a análise dos conteúdos da notícia e não era raro que o “lápis azul” incidisse sobre uma palavra, possivelmente duma lista que lhes era fornecida, mesmo quando inserida num contexto que podia até ser inocente. Com a prática, a capacidade refinou-se e o que parecia tacitamente permitido – durante algum tempo passou o termo “diamático” para fazer passar o conceito de “marxismo (materialismo dialéctico)” – passou a ser objecto de vigilância cerrada. Podia continuar a autorização para publicações destinadas a leitores menos instruídos e, portanto, menos familiarizados com o termo, deduzindo certamente que o texto se tornava incompreensível, mas não sucedia o mesmo se o nível fosse mais elevado.
Com frequência o comportamento dos censores era tristemente anedótico e seria até interessante organizar uma lista com o anedotário dos cortes praticados por aquelas figuras odiosas. Relato aqui um caso paradigmático do grau de cultura do censor, tão hilariante que parece inacreditável. Aqui fica descrito: a revista “Vértice” (a da 1.ª série, a de Coimbra) publicava normalmente na contracapa de cada número um pequeno texto, por norma sentencioso e didáctico. Num determinado número dos anos sessenta, pretendia inserir uma breve citação de Almeida Garrett onde aparecia a palavra “liberdade”. O censor proibiu o texto inteiro. O então editor, o romancista Mário Braga, uma vez que tinha decidido ir à comissão de censura para tentar salvar outros artigos daquele número, defendeu, indignado, a publicação do texto de Almeida Garrett, fingindo não compreender as razões da censura: sabia bem que a questão era a palavra “liberdade”.
Como o censor continuasse a negar autorização, Mário Braga terá dito para si mas de modo audível que “o senhor Visconde ia ficar muito chateado”. Intervém então o censor: «Mas este senhor é Visconde?». Perante a afirmativa de Mário Braga, mandou este conselho a Almeida Garrett: «Diga ao senhor Visconde que por esta vez passa mas que tenha cuidado com o que escreve».
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Em sequência, propõe-se aos leitores a leitura do poema A Liberdade, de Almeida Garrett:


