CENTRO DOUTOR JOÃO DOS SANTOS – CASA DA PRAIA – 40 ANOS DE EXISTÊNCIA por clara castilho
clara castilho
O Centro Doutor João dos Santos- Casa da Praia, foi o último serviço criado pelo Doutor João dos Santos, em 1975. Na sua história, pode-se destacar dois períodos: o primeiro entre 1975 e 1992, como serviço especializado do Centro de Saúde Mental Infantil e Juvenil de Lisboa, extinto em Julho deste último ano, com a reestruturação dos Centros de Saúde Mental; o segundo desde 1992, com a designação de CENTRO DOUTOR JOÃO DOS SANTOS – CASA DA PRAIA. Mantém na sua essência os objectivos gerais que João dos Santos preconizou para a Casa da Praia há 40 anos.
É uma estrutura reconhecida como centro de recursos da comunidade. Mantém vivo o modelo de intervenção junto da criança e da família que João dos Santos definiu como pedagogia terapêutica, no âmbito da educação e da saúde mental, bem retratado na sua última obra escrita – “A Casa da Praia – O Psicanalista na escola” , publicada em 1988.
Numa entrevista ao D.N. (1984) João dos Santos referindo-se à Casa da Praia dizia “….Não temos a pretensão de nos sobrepor à escola, ou de a substituir”(D.N. 84). (1979) ….“Não é uma escola de reeducação porque não de destina a aplicar o ensino especial….não é uma escola de ensino regular porque não se destina a ensinar crianças com programas escolares oficialmente estabelecidos…não é um hospital de dia porque se não destina a crianças com alterações graves de comportamento resultantes de perturbações mentais” do foro psiquiátrico”.
O modelo de intervenção da Casa da Praia contrariava a visão compartimentada de que quem trata da saúde não ensina, mas de que quem ensina pode influenciar na “cura”, proporcionando um espaço de transição entre o ambiente familiar e o ambiente formal da escola. Educação e saúde são tarefas de todos os cidadão (JS.1988) e têm que ser vistas como áreas complementares.
Actualmente, na Casa da Praia, o trabalho é desenvolvido por uma equipa multidisciplinar formada por professores e educadores, psicólogos, um psicomotricista, um técnico de serviço social e um pedopsiquiatra, contando com a colaboração pontual de outros técnicos, em função dos projectos em decurso.
O apoio à criança não é possível sem a colaboração da família, pelo que se impõe cada vez mais uma colaboração permanente e continuada entre técnicos e pais, conforme ensinou João dos Santos. A compreensão da criança e dos seus conflitos individuais não pode ser total nem efectiva se não existir uma compreensão das dinâmicas familiares e dos seus padrões relacionais e afectivos.
As crianças referenciadas à Casa da Praia, com idades compreendidas entre os 5 e os 12 anos, frequentam, na sua maioria, escolas ou instituições da zona envolvente.
A viabilidade desta instituição, do ponto de vista financeiro, tem sido possível pelo Acordo com a Segurança Social, pela cedência das instalações pela Câmara Municipal de Lisboa, pelo destacamento de docentes do Ministério da Educação, alguns apoios por parte do Ministério da Saúde e, ainda, pela colaboração voluntária de técnicos especialistas, tanto na formação da equipa, como na supervisão de casos.
A visão inovadora de João dos Santos é bem actual, quando afirma:
“Para nos mostrarmos educadores do nosso tempo, teríamos de mostrar […] como é que ensinamos as crianças a brincar com o tempo; como é que as ensinamos a fazer nada ou dito de outra forma, como é que as preparamos para parar o corpo e exercitar o pensamento; como é que as preparamos para respeitar o tempo que é invenção do homem e património dos homens; como é que as preparamos para respeitar e fazer respeitar o tempo que cada um cria, para ser preenchido pela reflexão e pela obra criativa essencial – a do próprio Eu”. (Santos, J. (1983) – Ensaios sobre educação – II. O falar das letras. Lisboa: Livros Horizonte, pág. 149)