ZOÉ BARBEITOS DOS SANTOS, UMA PROFESSORA QUE PUNHA OS MENINOS A PENSAR por clara castilho

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Um dia o Dr. João dos Santos entrou na sala onde eu para ele trabalhava e disse: “Casei-me!”. E explicou-me porquê. Não tinha que o fazer, mas fê-lo. E assim, a Zoé entrou na minha vida. Por muitos e bons anos, em bons e maus momentos, quer de meu lado, quer do dela.

Pois a ZOÉ (Zoé Santa Cruz Barbeitos dos Santos) deixou-nos ontem. Não falarei das minhas memórias pessoais, mas gostaria de a lembrar enquanto professora, mais do que como viúva do Dr. João dos Santos. Recorri ao jornal de A Torre quando comemorou os 40 anos (2010) e a testemunhos de antigos alunos. A Torre que ela ajudou a fundar, em 1970, com a Ana Maria Vieira de Almeida e a Lígia Monteiro, entre outros.

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Zoé, no lançamento das Actas do 3º Encontro da Casa da Praia , em 2005, no mesmo dia em que foi inaugurado o busto de João dos Santos, no Jardim das Amoreiras. Aqui acompanhada pela sua grande amiga Adília Almeida e por André Santos.

Dizem duas alunas (Inês Rolo e Margarida Cabral (1967):

E a Zoé?! Constava que quando se zangava lhe subia o cabelo. Esperámos quatro anos que tal acontecesse. Mas, em vão! Com ela fazíamos periscópios, montávamos casas de bonecas quando estávamos já na 3ªclasse e fazíamos teatro … À espera para chegar o “nosso dia” de ir dormir a sua casa, aquele dia mágico em que a parte melhor da escola se prolongava para a noite e, em grupos de duas ou três, íamos dormir a casa da “nossa professora”, uma professora muito especial.

Só muito mais tarde, já adultas, viríamos a saber que também o Doutor João dos Santos, pedopsiquiatra e investigador, achava a Zoé muito especial! Com certeza que a Zoé concordava inteiramente com os seus pensamentos, tão bons para nós! – “Deixem as crianças falar!”

E diz o Luís Gouveia (1971):

 Zoé – Vibrámos com as suas experiências, cativava-nos com a sua maneira de ensinar, fazia-nos rir à fartazana! Passaram-se tantos anos, tantos professores, instrutores e mentores, mas a Zoé continua a ser a referência: A Zoé era “A Professora”! E o que jamais esquecerei? Os “clisteres de açorda” e os “flaque-e-baques no trombil”!…Professora!…

 rosácea

Ana Maria Vieira de Almeida sua grande amiga, no 1º Encontro do Centro Doutor João dos Santos – Casa da Praia, 1997, “Pare, escute e pense” (pag. 168 das Actas) afirmou:

 […]“Por essa altura, a Zoé tinha feito uma revolução na escola:

Perante a apetência das crianças pelo desenho de padrões geométricos e pela utilização criativa que faziam de tampas circulares de boiões e de latas, resolveu pôr à sua disposição compassos. E foi uma revelação. Sem qualquer regra pré-estabelecida, por tentativas sucessivas, começaram a aparecer as mais extraordinárias formas circulares, desenhadas com o maior dos prazeres e na mais profunda concentração.

Quando João dos Santos viu esses desenhos, espantou-se e ficou maravilhado. À Zoé entregou um papelinho e mais tarde um poema que ela hoje me deixa ler.  O papelinho diz assim: “geometria = harmonia das catedrais = harmonia interior do corpo circular = rosáceas”.

 AS ROSÁCEAS SÃO UMA ORGANIZAÇÃO PARALELA ÀS POESIAS

 

A harmonia das linhas                                  A harmonia das palavras

Ligação dos sentimentos

Expressos em linhas                                      Ligação em palavras

A rosa/rosácea ou rosaça

Que desabrocha é poesia                               A poesia é geometria

É um conjunto harmónico

De linhas, formas e cores                               Conjunto harmónico de palavras

É uma interioridade expressa

Em harmonia não rígida

Porque tem curva

E movimentos                                                Sons e movimentos

É obsessionalização (*)                                  É organização do processo

Reunir de traço livre e                                   primário

Do mundo externo                                        num sistema elaborado e

                                                                       Comunicável

É o céu e a terra num continente

E conteúdo harmónico,

Uma abóbada celeste quase real,

Reflectida numa

Terra harmónica inventada

                                                                       As pessoas não sonham, contam-se

                                                                       E contam sonhos

*Dúvida quanto à palavra manuscrita”

Não foram só os meninos da “Torre” que beneficiaram do amor da Zoé. Se bem que indirectamente, foram todos os meninos que tiveram apoio na Casa da Praia, enquanto Instituição Particular de Solidariedade Social. Quanto foi extinta, em 1992, enquanto serviço do Ministério da Saúde, não sei se, sem a tenacidade e impulso da Zoé, nos teríamos juntado para manter a Casa aberta e prosseguir o trabalho pioneiro que João dos Santos iniciara em 1975. Zoé, um exemplo para todos nós. E, em nome das crianças e suas famílias, obrigada!

 

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