Em Portugal vive-se um conflito. Um conflito entre o passado e o futuro. Entre um grupo que representa o passado, o país propriedade de uma minoria, que não o sabe governar, e que o quer à medida dos seus interesses de grupo e de classe, e a restante população. Grande parte desta nem se apercebe das dimensões deste conflito/confronto, por estar demasiado influenciada pelas estruturas de comunicação, que funcionam no dia a dia do trabalho e da vida familiar, e pela grande comunicação social, que nos invade a esfera privada, quando procuramos saber o que vai pelo mundo, ou, da maneira mais simples, tentamos obter um pouco de recreação/distracção.
As eleições do passado dia 4 de Outubro, até certo ponto, deram um vislumbre deste confronto. De um lado, representantes de forças sociais e políticas que têm sido dominantes no cenário nacional, e que, sob a capa de manter a ordem interna e melhorar a aceitação do nosso país por instâncias financeiras e políticas internacionais, têm imposto consideráveis restrições à população em geral. Do outro, uma oposição diversificada, que defende a necessidade de pôr fim a estas restrições, e que são necessárias políticas que visem um maior bem-estar das populações, e que permitam a estas uma maior participação na condução da vida do país. Pode-se dizer que a dicotomia que acabamos de resumir não coincide necessariamente com os dois lados em confronto, a seguir àquelas eleições. Será verdade, de certa maneira. Mas o recente discurso de Cavaco Silva, extremando posições, veio obrigar a assumir e clarificar posições.
Os partidos que se apresentam como preparando, dentro do actual sistema político, a alternativa a Cavaco/Passos/Portas, têm de poder e saber comunicar com os cidadãos, muitos dos quais têm assistido passivamente a este conflito/confronto, e convencê-los a tomar posição pelos seus direitos e interesses. E saber interpretar e defender estes, de maneira a que todos o reconheçam.