Foi há uns anitos mas na quinta ainda se lembram bem do dia em que o toparam a olhar através das grades do portão. Tinha pêlo claro e um ar simpático. Tanto que alguém logo o baptizou de “Coelhinho”.
O “Coelhinho” acabou por ser adoptado por dona Genoveva, a mãe-galinha, que achava piada ao seu ar de menino envergonhado e logo o aconchegou junto dos seus pintos.
Em poucas semanas, o “Coelhinho” cresceu e perdeu o seu ar de menino envergonhado. Ele gostava de se ouvir e, por isso, falava alto. Tinha uma voz forte e chegou mesmo a imaginar-se como primeira figura do Scala de Milão.
Mas, como se sabe, a vida raramente nos dá aquilo que desejamos e o nosso “Coelhinho”, depois de largos anos a fazer de conta, começou a ganhar as suas primeiras massarocas a abrir portas…
Dona Genoveva orgulhava-se do seu “rapaz”, pois ele sobressaía dos demais da quinta e quando foi preciso substituir a velha galinha Manela sentenciou:
– O mais capaz é o meu “Coelhinho”!
Os habitantes mais velhos e sábios da quinta ainda torceram o nariz mas a verdade é que foi “Coelhinho” o escolhido para render a velha galinha.
Por essa altura, a quinta vivia um período de grande confusão e “Coelhinho” acabou sentado na cadeira do poder. Apesar de ser coelho e de a maioria da população da quinta ser constituída por animais de outras e variadas espécies.
Agora, “Coelhinho” era o manda-chuva. Só conversava com quem queria e mesmo dona Genoveva, a mãe-galinha, só conseguia falar-lhe quando ele passava perto do seu galinheiro.
“Coelhinho” mandou construir uma coelheira nova e ali meteu os seus “boys”, isto é os seus amigos, a quem atribuiu todas as benesses.
Foi assim, ao longo de vários e penosos anos. Anos marcados por cortes na ração para a esmagadora maioria dos animais da quinta e onde muitos dos mais velhos acabaram a tiritar de frio e os mais novos a escapulir-se para quintas vizinhas à procura de melhor sorte.
Aos poucos e poucos o descontentamento assentou arraiais na quinta. Os mais velhos não gostavam de ser maltratados e não suportavam ser privados da companhia dos seus filhotes.
Começaram a protestar, a fazer greves e até os burros, sempre dóceis, acabaram a mostrar as suas grandes dentuças a “Coelhinho” – o ex-simpático coelho que alguns anos antes tinham acolhido na quinta.
“Coelhinho” era um mau feitor e um feitor mau. Mas esqueceu-se de um pequeno-grande-pormenor. A quinta tinha uma lei e bastava que a maioria a fizesse respeitar para que “Coelhinho” e os seus comparsas fossem corridos. E se bem o pensaram, melhor o fizeram: realizaram uma assembleia e votaram.
A assembleia durou várias horas e quando dona Genoveva presidiu à contagem dos votos percebeu, sem surpresa, que o seu filho adoptivo tinha sido corrido da coelheira principal pela maioria dos habitantes da quinta.
“Coelhinho” e o seu cãozinho de colo ainda espernearam mas de nada lhes valeu. Foram corridos da quinta. Para desespero de alguns e do galaroz da quinta da Belenzada (**) que, pela calada da noite, o instruía…
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* Esclareço que toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência e que os personagens da história são mera ficção. O agricultor João Pedro Gorjão Cyrillo Machado, presidente da prestimosa CAP, nunca permitiria que a sua quinta fosse dirigida por um tão mau feitor.

